domingo, 27 de dezembro de 2015

IMPERCETÍVEL( Outra versão, última tentativa de melhorar a história.)



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Escrevo e não dá certo. Faço novamente. Desânimo e ansiedade, mas não posso desistir. Os tropeços vêm antes do salto mortal. Não posso me aborrecer com as críticas, tenho que usá-las a meu favor, para continuar minha busca. Deleto, deleto, deleto. Não tenho estilo, as ideias derramam, mas não consigo moldá-las. Mas por que continuo?  É que não só desejo me transformar em artista. Estes ensaios me salvam. Este livro é um erro e chato por ser muito descritivo. Assim nem parece literatura! Mas, tentarei revisá-lo outra vez e costurar outra roupagem. 
O livro que quero escrever é uma experiência de quem acha que pode ser um escritor um dia.  Meu Deus, que objeto não identificado é este que estou escrevendo. Parece que tem vida própria.  Chega de falar de mim. Quero falar dela...  

***

  Ele morria de sono. Acabou de escrever alguma coisa no computador.   “Meu Deus, o que foi que eu fiz?”.
Depois, deitou na cama.  A vontade de escrever um pensamento foi mais forte que o cansaço e o sono. Pegou o caderno, caneta e começou a escrever: “INSPIRAÇÃO: 3. Qualquer estímulo ao pensamento ou a atividade criadora. 6. Entusiasmo poético; estro.  7, teol. Moção divina que, segundo a crença cristã, teria sido dirigida aos autores dos livros da bíblia.”(Aurélio). 
Concluiu que Sophie é esse suspiro divino, que o atormente e o fascina.

***


***
PARTE I
Observo a moça imperceptível de longe. Antes, a via sair de casa para trabalhar, ir à faculdade e quando corria para manter a forma. Agora, vejo-a com a família. Sempre brinca com os filhos e namora o marido. Montei na parede do quarto, um painel com fotos suas em preto e branco, embaçadas de propósito. É assim que a vejo realmente. Precisa abstrair, para olhar a sua beleza. Confesso que até inventei uma fantasia erótica com ela, que nunca se concretizou...

Nunca interferi na sua vida, só a espio. Quero conhecê-la e saber o que pensa. As joias que ganhava dos amantes vendia e investia nos estudos. Acreditava que se não estava prejudicando ninguém, poderia fazer o que quisesse (quiser). A vida era dela, afinal de contas. Sentia medo da loucura, é seu temor primeiro. Lembrava-se sempre dos moleques da rua onde mora que implicavam com uma mendiga louca, chamando-a de fedorenta.  Os adultos riam e alguns permitiam aquela situação degradante.

Escrevi-lhe, uma vez, um bilhete. Tive uma surpresa logo depois: “Sei que é um voyeur. Tem esse poder, sei disso. Gosto de ser observada por você, fico excitada, apesar de amar meu marido. Observa-me desde menina. Mas não ouse meter-se no meu caminho. Acabo com você, num piscar de olhos. Você conhece a minha intimidade, sem me tocar. Sabe de coisas, que nem meu marido, conhece. Isso é tão interessante e estimulante. Não é só você, que sabe tudo sobre mim. Conheço toda sua vida. Sou uma voyeur, também. Quer escrever um livro sobre mim, mas tenha cuidado com que escreve...”. 
 Ela é humana, isso me fascina. Imoral, sensual, racional, boa filha, mãe carinhosa, apaixonada pelo marido, excelente profissional e ambiciosa.
No armário escondeu chocolates e caixas de bombons. Adorava comê-los, não repartia com ninguém. Uma vez esqueceu, por muito tempo, que tinha uma barra de chocolate no armário. Ela apodreceu. “Tanta gente passando fome e eu deixei apodrecer uma barra de chocolate no armário”.
Quando saiu com um namorado, estava sem calcinha. Ele nunca poderia imaginar que aquela moça vestida discretamente, pudesse estar sem a roupa íntima. Ao ver, ficou surpreso. Nunca mais se esqueceu da noite inesquecível, que teve com aquela moça aparentemente sem sal.
Sophie sonha sempre o mesmo pesadelo: 
 “Um corpo de mulher estirado num terreno baldio. De repente, aparecem vários urubus com rostos de homens barbados e com dentes enormes e afiados. Começam a devorá-lo, principalmente, as nádegas da mulher. Engraçado, desde que me entendo por gente, sempre sonhei com isso.”

Recordava-se da irmã mais velha, que morreu num acidente de carro. O velório foi muito triste. A mãe chorava muito, o pai a consolava e chorava também. Ela estava apática, seu rosto estava seco. Os vizinhos fuxicavam que ela não gostava da irmã. Todos estavam errados, ela a amava muito.

PARTE II
Eu a chamei de Sophie.   
Trabalhava como secretária num escritório, que ficava na cobertura de um dos prédios mais importantes do centro da cidade. A janela ampla mostrava toda a Baía de Guanabara. Ela pensava que esse escritório deveria ser dela já que  era mais inteligente e capaz que o chefe, Otávio Ferraz de Albuquerque, que se achava o senhor do mundo.
Quando saía com seu escolhido, abusava da sensualidade. Ninguém poderia imaginar que aquela moça aparentemente sem sal, poderia tomar atitudes tão avançadas e possuir uma volúpia tão à flor da pele. Um dia, um amigo contou as “aventuras secretas”, que teve com Sophie para Otávio. Ele ficou curioso, não dava nada por ela. Começou a se insinuar e  Sophie não gostou, o chefe não era o escolhido. Ele insistia, ela dizia não. Recalcado porque uma mulher de aparência tão comum não lhe deu bola, chamou-a de vadia. Sophie apenas sorriu, disse que não tinha nada a ver com isso e o mandou pastar. O executivo ficou sem ação. Era verdade. Só teve força para dizer:– Saia daqui agora, vagabunda!
Ao ir embora, ela pensou: “...um dia terei um escritório igual ou melhor”.
Sophie não ficou preocupada. Pediu ajuda a um antigo amante rico, que se tornou amigo, para lhe arranjar um emprego melhor. Conheceu-o quando trabalhava como recepcionista. O primeiro encontro deles foi no elevador. Ela o olhou sensualmente e começou a passar o batom nos lábios. No primeiro momento, o homem não a tinha notado. Quando a percebeu, desejou-a ali mesmo. Tiveram alguns encontros e acabaram a relação sem brigas.
Só recorre a um conhecido importante em último caso. Não abusa. Mantém sempre o contato, envia cartão nas festas de finais de ano e aniversário. Acredita que é bom cultivar boas relações sociais e afetivas, rendem muitos frutos tanto profissional como pessoalmente. Ela também sempre ajuda os que precisam. Conseguiu um emprego muito melhor do que o anterior. O seu amigo ficou feliz em empregá-la. Sabia que estava fazendo um bom negócio, ela era ótima profissional.

Sophie estava muito bem financeiramente. Montou uma confeitaria, que era o sonho dos pais e comprou uma casa confortável para eles. Mas faltava-lhe alguma coisa, sentia-se ainda incompleta.



III

Meses depois se apaixonou por um rapaz humilde. Era empregado dos seus pais na confeitaria. Encontrou-o pela primeira vez quando ele foi à confeitaria para arranjar trabalho. Estava com olhar cansado por procurar emprego o dia inteiro. Sophie olhou para o rosto cansado: “Esse é o homem da minha vida”.
No início do romance ele se achava inferior. Queria até terminar o namoro para não prejudicá-la. Fugiu. Foi morar no pequeno sítio de um tio, que ficava muito longe da cidade. Ela foi atrás dele. Ajudou o rapaz, custeando seus estudos. Enfrentaram, no início, muitos preconceitos das respectivas famílias, amigos e colegas, mas depois todos perceberam que foram feitos um para o outro.

Atualmente ele é um renomado professor universitário de Sociologia e ela uma executiva de sucesso. Têm três filhos, um adotado, como ela sempre planejou. Aliás, nada saiu errado para Sophie. Eu queria ser determinado e racional como ela. Não consegui me civilizar, sou uma besta preguiçosa.

Quando nos encontramos na rua, ela me olha como se estivesse querendo me desvendar. Sinto uma mistura de medo e desejo. Só nos olhamos. Nunca passou disto.

****
Quando acordou, estava inspirado: “escreverei um livro”. Só não sabia como, estava obsessivo.

Pela janela da frente, Sophie observava o vizinho e escrevia no diário:

“Apesar de ele achar que me conhece, nunca terá ideia que sou muito mais do que descreve. Esta história, na verdade, é sobre uma personagem que ele construiu, não eu. Por isso, gosto de ser imperceptível para viver na liberdade dos olhares dos outros. Realmente, em parte, está certo quando disse que eu escolho por quem quero ser notada, não perco tempo com idiotas. Assim como ele não pode saber de mim, com certeza desconheço muitos aspectos de seu caráter. Imagino e não deixo de, também,  construir um personagem . Às vezes, penso coisas estranhas como se fossemos reflexo um do outro. Chega de devaneios, preciso ir ao aconchego da minha família para deixar de refletir bobagens.”

***

Ultimamente, tenho um sonho estranho. Decomponho-me em palavras e estou preso no diário de Sophie. À medida que ela escreve, outras letras surgem e me torno outro. Logo, através deste sonho deixo de ser voyeur para ser observado. Amanheço assustado.  








sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

BRILHANTES

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Sempre quis fugir da escuridão e dos monstros. Um dia, viu uma joia brilhante que tornava o mundo lindo. Então, resolveu fazer de tudo para ficar rodeada de brilhantes.

Porém, através dos sonhos, a escuridão e as bestas atormentavam-na.


Ao amanhecer, ela já colocava um colar de pérolas e se olhava no espelho. O encanto dissipava a moléstia.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

ANTES DOS OUTROS CHEGAREM




Está parada em frente da pia e com um olhar perdido. O cunhado aparece sem camisa e coloca a mão em seu ombro. Ela estremece e suspira. Ele a abraça por traz e a moça sente o corpo forte sobre o leve tecido da camisola. Sempre gostou de ser tocada por ele. Os dois choram e o homem se retira.


A jovem fica por alguns instantes na cozinha escura e vai ao encontro da irmã, que está inerte na cama. Na varanda da sala, o marido diz ao telefone: “ Descansou”. Depois, deita ao lado da mulher falecida e da cunhada.

 Aproveitam o último momento dos três juntos, antes dos outros chegarem. 

sábado, 19 de dezembro de 2015

FETICHE SECRETO

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Frederico imaginava-se um guerreiro muito forte que, depois de matar um dragão, possuía a linda-inocente-princesa-de-seios-enormes-e-nádega-arrebitada. 

Acreditava que podia fazer de tudo com ela, já que não existia de verdade. Inclusive, nem estava traindo sua esposa.

Porém, um dia, sua mulher recebeu uma carta anônima que revelava o fetiche secreto do marido. Revoltada, saiu de casa com os filhos.

Ele nunca descobriu que foi o vilão de sua história imaginada que o denunciou, por estar cansado de perder para Frederico todas às vezes, enquanto o outro regozijava os prazeres mais intensos com a linda-inocente-princesa-de-seios-enormes-e-nádega-arrebitada.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

ENCONTRO


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Através do reflexo da bola da árvore de natal, o menino via um senhor com olhar cansado.

À medida que crescia, a projeção do senhor tornava-se mais jovem. Já muito idoso, o menino de outrora observou a bola da árvore mais uma vez. Viu que o garoto do outro lado se parecia muito com ele, quando era jovem.



A criança lhe estendeu a mão e o senhor entrou na bola, onde sempre imaginou ser um mundo mágico natalino.


***


Fiz um blog reunindo contos meus de natal antigos. Por favor deem uma olhada sem compromisso.  http://contosdenataleduardooliveira.blogspot.com.br/


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O PAI X O CARRASCO




- Meu pai me ajudava nos deveres de casa.

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- Ele me torturava todos os dias.

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- Levava-me ao cinema aos domingos.

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- Era um dos mais terríveis!

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- O que me importa é que foi um bom pai.

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- Que pena,  morreu e não pode ser mais punido. Mas, a História o condena, inclusive, o que ele representou no passado.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

“ Não estou perdida, mas achada na imensidão do mundo”

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Um dia, a menina percebeu que a bailarina da caixinha de música havia desparecido. Chorou muito, pois adorava vê-la rodopiar. Anos depois, já uma moça recebeu um cartão. Sorriu e ficou feliz pela bailarina. 

domingo, 13 de dezembro de 2015

NOITE BRAVA( texto antigo)



Espírito rebelde
Coração saindo pela boca
Pensamentos e sonhos se misturam
Quero estar com os Deuses!
As estrelas dançam para mim
Sou gigante e como carne humana
Noite brava
Não tenho medo
Sou gigante-bravo-guerreiro
Nenhuma pedra vai atingir minha testa
Vou pegar o ouro que está no fim do arco-íris
Sou movido pelo prazer
O sentimentalismo barato não me atinge
Sou mito
Começa a amanhecer
A noite brava me dá uma lambida
Vai embora
Amanhece
Acordo
Viro grão de areia outra vez

sábado, 12 de dezembro de 2015

APENAS UM DIA( conto antigo e retocado)



“A vida está cheia de uma infinidade de absurdos que nem sequer precisam de parecer verosímeis porque são verdadeiros.”

―Luigi Pirandello
Frases - http://kdfrases.com


Parecia um dia comum como qualquer outro, senti a luz do sol no rosto. Fui tomar banho e me arrumei para ir ao trabalho. De repente, percebi um silêncio, cadê todo mundo? Estou só na casa e isso é raro acontecer. Quando fui sair de casa, Foca me avançou. Achei estranho, sempre foi uma cadela mansa. Fugi e tranquei o portão. Ao caminhar, percebi olhares ameaçadores e não entendia o motivo. Um carro invadiu a calçada e veio à minha direção. A multidão gritava: " Acaba com ele!".  Desesperado, corri para casa de novo, Foca não estava mais lá. Vi meu pai na cozinha e contei o acontecido. Ele disse que ia fazer um chá de cidreira para me acalmar. Meus pensamentos estavam caóticos e me deu uma vontade descomunal de beber água. Quando fui à cozinha, vi meu pai colocando um pó estranho na xícara de chá, perguntei-lhe o que era aquilo, ele pegou uma faca e veio para cima de mim. Lutamos até eu dar uma rasteira nele e consegui pegar a faca. Novamente fui para rua e, do nada, grupos me perseguiam com porretes. Perguntava-me por me aquela gente me atacava se não fiz nada? Para fugir, entrei em vielas e dobrei esquinas que nem sabia existirem na cidade. Queria encontrar um refúgio, então, olhei uma pipa vermelha que cortava o céu como se fosse um pássaro, resolvi segui-la. Corri muito até chegar num bosque, a pipa havia sumido.  Escutei a voz de uma jovem, dizendo olá. Fiquei com medo de ser uma armadilha, mas ela me contou que aquilo acabaria logo, durava só um dia. Quis saber mais, porém argumentou que o importante era me salvar. Falou que me ajudaria, não tive escolha e me lancei ao abismo com ela. Na verdade, ela me levou ao seu chalé, que era repleto de objetos antigos e delicados. Conversamos sobre tudo e fomos nos aproximando e nem percebemos a noite surgir pela janela. Depois, transamos pela madrugada adentro. Quando amanheceu, acordei com um bilhete: "Pode ir. Só sinto desejo por homens perseguidos.". Fui embora e ninguém me atacou na cidade.  Entretanto, vi um homem ser perseguido por um monte de gente. Tomara que encontre a pipa vermelha e a moça que me ajudou.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Saiu do ninho e partiu para o mundo...


NOITE-SONHO( Conto retocado)



“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”


“O sonho encheu a noite
Extravasou pro meu dia
Encheu minha vida
E é dele que eu vou viver
Porque sonho não morre.”
Adélia Prado

Minha pele está repleta de estrelas. Estou anoitecido. Ao longe, ouço o pessoal da vila a gritar, perseguem-me. Dizem que sou uma aberração. Não sinto ódio, pois compreendo que o desconhecido dá medo. De repente, os pensamentos e palavras se esvaziam em mim e sinto a totalidade da noite. Tenho a impressão de chegar ao divino vivo. Os gritos desaparecem. De repente, ouço os pássaros, passos apressados e barulho de buzina. Amanheci, porém, o sonho-noite ainda flui em mim.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

CÉU( CONTO PUBLICADO EM 21 de outubro de 2013)





- Lana, pare de brincar de amarelinha. Está na hora de ir à igreja.

- Ah mãe, me deixa chegar ao céu para conversar com Ele. Aprendo muito mais.

Conto inspirado no conto de uma amiga


 
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- Mamãe?!

- Que é menino? A gente tá no culto. Somos visita e não podemos fazer vexame.

- Mas, estou com dúvida. Esta igreja é do Senhor ou do Diabo?

- Claro que é do senhor, garoto!

- Então, por que só está se falando do Diabo?


domingo, 6 de dezembro de 2015

PENSAMENTO SOMBRIO( Conto antigo e retocado)

Apolo e as Ninfas

Era belo, inteligente e tinha muitos amigos. Sua vida era luminosa e bem sucedida, mas, quando via na casa ao lado o vizinho muito doente cuidado pela mãe, um pensamento sombrio o angustiava: “Se eu estivesse deste jeito, será que alguém me amaria?”.

 Olhou-se no espelho, quer apagar a reflexão incômoda ao contemplar seu corpo esculpido pelos exercícios que praticava. Enquanto isso na casa ao lado, o vizinho e a mãe soltavam gargalhadas, aproveitando cada segundo juntos a mais uma noite de natal.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

PODER





“Muitos acham o dinheiro muito importante, entretanto, o valor está no significado que se dá a ele. O bicho Homem tem fome de símbolos. Sem nosso olhar, a grana em si não representa nada. Portanto, o poder que é fundamental para a sobrevivência de um grupo. Na busca dele é que roubo. Quero tornar minha família e os meus pares donos do país. Controlar tudo! Ninguém sabe como é cansativo usar uma máscara o tempo todo e não mandar todo mundo ir à merda. Joguei minha autenticidade no rio há muito tempo. Preciso usar meu carisma e costurar alianças para me tornar mais forte. A conquista da hegemonia é uma luta exaustiva. Vejam o que acontece na História da humanidade, será que é justa? O que dizem os vencedores e os vencidos? As grandes fortunas dos ricos e países desenvolvidos foram só construídas com esforço e lágrimas? Desculpa, mas, se acreditam nesta historinha é porque são muito inocentes e devem ser os primeiros a serem sacaneados. Perdoe-me, gente inocente nesta altura do campeonato tem que levar trolha para deixar de ser trouxa. Quem me critica é um bando de invejosos, pois não fazem parte do jogo. Aí ficam falando de ética, é tudo bobagem, na verdade, querem ser eu. Será que vocês são diferentes de mim? Nunca avançaram o sinal? Nunca jogaram lixo em lugar proibido? Nunca burlaram de pagar o Imposto de renda? Nunca pegaram indevidamente material de escritório do trabalho? Nunca fizeram nada de errado? Sejam honestos consigo mesmos, queridos. Talvez, se não fizeram nada disso, não foi por convicção ética, mas pelo medo da punição. Vocês desejam ser eu e represento seus impulsos mais primitivos de supremacia.”

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Mariana...


“Você tem que criar a confusão sistematicamente, isso liberta a criatividade. Tudo o que é contraditório cria vida.” Salvador Dalí


Mostrou um quadro que pintou para Augusto. O rapaz quando o olhou, ficou curioso. Na imensidão branca do quadro, só existia risco vermelho que parecia uma mínima fenda. Augusto perguntou a Mariana o que significava o quadro.



– Não sei, mas, um dia saberei e lhe contarei. Colocou o quadro na parede e foi embora.



Augusto ficou mais tempo, observando-o. Desejava entendê-lo de qualquer maneira. Mariana não compreendia a razão de Augusto insistir em buscar uma resposta para tudo.



De repente, Augusto ficou tão fixo em compreender o quadro que entrou na fenda vermelha e desapareceu. Mariana quando percebeu o desparecimento do amigo, começou a dançar e a chorar. As lágrimas continham peixes.



Mariana nunca mais pintou. Deixou de ser artista, casou e teve cinco filhos. Mas, todos estranhavam quando chorava lágrimas com peixes.


domingo, 29 de novembro de 2015

O GAROTO E EU




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O garoto corre pela casa, lutando com inimigos imaginados.
Eu luto com inimigos reais.
Os inimigos do menino são gigantes poderosos que quando destruídos se desfazem em pó encantado.
Os meus são homens como eu, mulheres, crianças idosos e doentes. Não viram pó mágico, seus corpos se amontoam nos destroços.
O garoto luta mano a mano com uma espada de plástico.
Eu estou a quilômetros de distância do campo de batalha. Só aperto o botão para acionar o bombardeio.
O garoto cresce e vai para guerra defender sua pátria. Sente-se vencedor.
Eu retorno derrotado e a culpa me consome.

O garoto e eu somos um só universo, juntos e misturados. Vencedor e perdedor, mocinho e vilão.

sábado, 28 de novembro de 2015

SOB A NEVE( conto antigo e retocado, talvez novo conto)

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trabalhava no armazém dos meus pais recebo o convite de uma tia para viajar a um lugar que sempre quis conhecer/ no início  estava inseguro ela tinha fama de ser muito chata  a viagem foi um inferno me humilhava quase todos os dias  dizia que eu era um homem de mais trinta anos fracassado nunca senti tanto ódio por uma pessoa suas palavras me corroía/ mas  teve algo bom na viagem encontrei uma prima distante a bela Sofia de dezoito anos saíamos escondidos para ela me mostrar a cidade que habitava meus sonhos por muito tempo fazíamos amor na adega de seu pai de repente me senti mais vivo/ um dia nos descobriram minha tia me humilhou tanto que o ódio me subiu a cabeça a empurrei chamando-a de vagabunda/estou perdido no bosque todo o meu corpo está congelado a neve me cobre ESPERA UM MOMENTO tive a impressão de uma mão afagar o meu rosto não sei se foi de minha mãe ou de Sofia tudo se mistura em mim passado presente futuro

 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

GRANDEZA INESTIMÁVEL ( Miniconto antigo e retocado)



Enquanto o homem a possuía, ela olhava fixamente a estatueta. Um dia, o senhor não quis mais seus serviços e lhe ofereceu uma grande quantia em dinheiro. A jovem disse a ele que desejava a estatueta. Satisfeito, deu-a sem pestanejar, a peça não lhe era valiosa. Mas, para ela, tinha uma grandeza inestimável.


O objeto foi feito pela sua avó que deu de presente para um político que prometeu grandes melhorias à pequena cidade, onde moravam. Todavia, ocultava suas verdades intenções com a máscara de “senhor respeitável”.


Estava com a avó quando a senhora deu a lembrança ao político. Como sentia saudade dela...


Saiu e o homem nem percebeu, estava planejando negociatas com seus assessores pelo celular.


sábado, 21 de novembro de 2015

FOME DE PRIMEIRAS VEZES



“...Aborreço-me da possibilidade
De vida eterna; o tédio
De viver sempre deve ser imenso.
Talvez o infinito seja isso...
Já o tédio de o pensar é horroroso.” Trecho do poema de Fernando Pessoa Primeiro Fausto Primeiro Tema MISTÉRIO DO MUNDO 


O peso da eternidade é quando deixamos de sentir pela primeira vez as coisas e como sinto saudade disto, tanto pelo bem e pelo mal. Tudo fica tão repetitivo que não consigo mais sentir nada. Olha que só tenho mil anos de existência e a fome de sentir pela primeira vez aumenta cada dia. Já conheci tanta coisa neste mundo que o tédio me sufoca. Tudo se repete, só mudam os atores. Preciso encontrar um jeito de morrer, mas estou amaldiçoado de ver a humanidade repetir os mesmos erros. Entretanto, ainda sinto que há ainda em mim aquela criança curiosa que acumula primeiras vezes. Só que está soterrada pelo conhecimento milenar que adquiri. Talvez, se eu conseguir me livrar de tudo, conseguirei sentir minha última primeira vez, a morte.


ACORDO!( conto antigo e retocado)


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A primeira coisa que vejo é um velho de sessenta e seis anos, o espelho fica em frente à cama. Apronto-me e vou tomar café no boteco perto de casa. Degustando meu pão requentado, uma colegial veio até mim: “ Vem girafa, estamos atrasados”. Fico atônito, ninguém me chama assim há bastante tempo. ” Minha filha, quem é você?”. “ Girafa, para de palhaçada, precisamos ir”. Pega a minha mão e me deixo levar. Entramos no colégio que freqüentei quando era jovem, há cinquenta anos. Sentado na carteira, a professora Cândida veio a mim: “ Fez o dever de matemática?”. “ Senhora, não sei que pegadinha é esta. Estou com o meu coração pela boca. Sou um senhor de sessenta e seis anos...”. “ Para de encenação. Como sempre cheio de gracinhas, mandarei um bilhete aos seus pais.”. Na sala, todos me encaram com normalidade, me sinto mal cercado de rapazes no auge do condicionamento físico. Eu era como eles. Vejo uma bolinha de papel cair na carteira: “ Girafa, hoje não tem ninguém em casa”. Reconheço estas palavras, mesmo que o tempo as torne embaçadas na memória. Olho no relógio, preciso sair desta insanidade. O sinal toca e todos se levantam para ir embora. A colegial segura no meu braço e me carrega ao seu apartamento. Será que ela me vê realmente com as minhas pelancas ou me enxerga na versão de cinquenta anos atrás? Passamos a tarde inteira fazendo amor e quando vou embora, ela está adormecida. Retorno para casa e quando me preparo para deitar, vejo um rapaz de dezesseis anos tornando-se um velho novamente.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

VIAJANTE DE PRIMEIRA VIAGEM


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"Fixo instantes súbitos que trazem em si a própria morte e outros nascem – fixo os instantes de metamorfose e é de terrível beleza a sua sequência e concomitância." Água Viva e Lispector , Clarice



Sou mais um na multidão ou alguém sabe  meu segredo? Tento esconder minha alegria de criança por viajar ao exterior pela primeira vez, não quero aparentar ser bobo, tem tanta gente que já está tão acostumada como se fosse à padaria ou ao supermercado.  Este tipo de gente é internacional, enquanto eu... Meu lado adulto-pretenso-informado aperta forte a mão do meu lado criança. Alguém me olha, será que fui descoberto? Será que estou um clichê? Não quero me machucar ao ficar idealizando uma viagem de um mês e expor minha felicidade clandestina, sei lá, um indivíduo mal intencionado pode manipulá-la para me dominar mentalmente. Estou cansado de construir castelos de nada, só desejo curtir o momento sem pretensões. Quer saber de uma coisa, saltarei no escuro! Se eu me foder, não tem problema. Vou me reerguer novamente e continuar a viver. Está na hora do avião decolar, será que vou morrer num ataque terrorista ou afogado pelo tsunami e se o avião cair? Que se dane! Estou viajando para o exterior, um sonho tão antigo desde que me entendo por gente. E mesmo estar num avião  na classe econômica, faz meu coração pulsar como nunca. Nunca mais senti isto desde quando era menino. Devo estar com um sorriso de tolo no rosto, não vou mais me esconder. Podem achar que sou um turista de primeira viagem cafona e ignorante, não me importarei mais. Estou fruindo  a emoção de viver minha aventura particular, que só tem valor para mim. Olho para janela do vizinho( estou no meio) está de noite e sinto uma formigamento gostoso na barriga. Estou pronto para o bem e para o mal, o importante que estou vivendo. Que venha o desconhecido!




***



domingo, 15 de novembro de 2015

Aspirante_escritor_egocentrico@google.com( outro conto inspirado em fatos reais)


Resposta:

“ Prezado Eduardo,
A editora este ano não publicará mais ficção, por isso disponibilizaremos seu material para o senhor pegar em horário comercial no endereço...

Sinceramente, apreciei seus contos, mas, tem um que particularmente me irritou um pouco. Chama-se A GRANDE MÃE, que de repente numa cidade pequena um seio gigantesco aparece e jorra leite condensado nos habitantes, os quais entram num êxtase profundo. Esta imagem da mulher-deusa que sempre se doa é um saco. Por que a mulher precisa nutrir e não consumir? Por que não escrever sobre uma Deusa-mulher-devoradora-insana que abocanha tudo que vê pela frente?  Chega dessa história de ser a mãe, a sociedade precisa de gladiadoras vorazes e enlouquecidas que só querem sentir o gozo profundo de devorar tudo e todos.

Estou me metamorfoseando em uma enorme vagina com dentes afiados. Não estou utilizando metáforas, é verdade. Meu autocontrole se esvai e meus lábios aumentam a cada segundo...”

***

Eduardo não conseguiu fugir. O planeta foi engolido por uma fenda enorme. Só restaram o vazio e as trevas. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

ACONPANHADA

Sunlights in Cafeteria de Edward Hopper 


Quando a viu sozinha, o homem pediu para se sentar. Na verdade, via-se acompanhada com suas lembranças e lhe disse que todas as cadeiras estavam ocupadas. Ele resmungou que era louca, mas nem ouviu. O papo estava muito revelador, pois, a cada diálogo um fato inédito surgia e o qual ela nem tinha se dado conta antes.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Madrugada de Verão( Ideia antiga e revisada)


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“A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado.”

    Não consegue dormir. Olha pela janela o céu escuro e repleto de estrelas. Percebe que uma coruja o observa. O olhar do bicho gela seu coração. Lembra-se de Marisa com rosto pálido, deitada numa maca; o médico com cara de raiva olhando para ele e a moça. Tem a impressão que a coruja manifesta a mesma fisionomia carrasca. Não deseja recordar. Marisa gostava de ficar por cima quando faziam amor, via-a soberana. Outra vez, a maca aparecia e o mesmo rosto feminino pálido. A cada segundo, a coruja se torna gigante. Fecha todas as janelas da casa. Fica só de cueca, mesmo assim estava encharcado de suor. Escuta o barulho de asa nas vidraças. Não aguenta o calor, toma banho. Água insuportavelmente quente. Escuta um barulho, vê a coruja no basculante. Sai do banheiro e deita na cama molhado. O sono vem. Adormece com o vento quente do ventilador secando-o.
Amanhece. F. vai à janela e a abre, céu está azul e infernal. Coloca uma sunga e caminha até a praia.  Quando retorna, pega a maça mais bonita na geladeira. Morde e cospe em seguida, está podre.  De repente, sente a presença da coruja.