quarta-feira, 15 de agosto de 2018

INSACIÁVEL (2014)







- João, precisamos conversar.

- Sim, está tudo bem?

 - João... Estou apaixonada por outra pessoa.

 - Quem, Antônia?

 - Lauro.

 - Lauro? Antônia, eu te amo! Tudo bem que não sou rico como ele, além da pegada que ele tem e de seu corpo escultural nos mínimos detalhes.

- João, como você sabe que ele tem uma pegada forte e detalhes de seu corpo escultural?

- Por nada! Só imagino. Por favor, vamos passar uma borracha em tudo isso e vamos ficar juntos.

 - Estou achando isso muito estranho. Você não está puto e sinto que tem algo a esconder.

- Para de bobagens, Antônia. Lauro é o tipo de pessoa que só quer seduzir e ser seduzido.

 - Como sabe de tudo isto? Eram apenas conhecidos... Espera um pouco, tiveram um caso também?!

 - Antônia, por favor, vamos deixar quieto. Bosta quanto mais mexe, fede.

- Fale, João. Precisamos encarar a verdade, é a única chance de a gente ficar bem de novo.

- Certo, lembra-se da festa do Vagner? Estávamos andando pelo sítio dele e conversávamos assuntos sem importância, de repente, ele me beijou e aconteceu.

 - Não acredito! Ele me pegou também nessa mesma festa!

- Antônia, ele é insaciável!

- O que faremos?

- Não sei, mas te amo, apesar de ter a ideia fixa no Lauro.

 - Eu te amo, também, João, mas estou vidrada nele.

 - Que tal a gente passar mais tempo juntos e fazer uma segunda lua de mel, Antônia?

- Concordo. Pelo menos, se ele gostasse realmente da gente, poderíamos fazer uma relação a três, né?

- Ele iria nos trair muito e nossas cabeças ficariam com chifres gigantescos.

 - Pois é. Não iria suportar.

 - Antônia, não quero te perder. Vamos ficar só nós.

 - Nem eu, João, não quero te perder. Não consigo me imaginar sem você.

 *** 

Resolveram dar uma chance ao casamento e apagaram as mensagens que Lauro, o insaciável, que enviava para os dois no mesmo dia da revelação.

sábado, 4 de agosto de 2018

À espera



- Mana, por que seu casamento demora tanto?  O dia já ficou ensolarado, nublado, chuvoso, quente e frio. As árvores ficam secas, cheias de folhas e flores várias vezes ao mesmo tempo e ainda estamos aqui. Quero logo entrar na igreja  como sua dama de honra! Depois, brincar com meus primos e amigos na festa. Não vejo a hora de comer os doces, também. Mana, há quanto tempo estamos  aqui? Estou cansada de experimentar este vestido, por que a custureira não vem logo, para fazer os últimos ajustes? Mana, está  tão silenciosa, que sinto saudade de sua voz.

××××

A irmã mais velha não dizia nada, para não desiludir a mais jovem, que estava segura em seus devaneios sobre o casamento.
Não tinha coragem de revelar a outra que, na verdade, eram manequins prestes a serem jogadas em um lixão.

terça-feira, 24 de julho de 2018

“Ainda escreve?”



Alguém me perguntou e não consegui responder.  Sou aquele que não tem respostas prontas.  Então, comecei a remexer alguns escritos antigos. Não escrevia há bastante tempo.
Ao relê-los percebi como tive várias fases. Houve momentos, os quais me inspirei Rubem Fonseca, Machado de Assis, Saramago, Clarice Lispector entre outros... Além, de ensaiar alguns estilos superficialmente. 
Na verdade, estes textos de anos guardaram, nas entrelinhas, meus eus passados e me surpreendi de como fui ingênuo, pretensioso, pouco profundo e tolo. Muitos dos meus textos antigos e atuais são superficiais e repletos de clichês. Ri que nem louco.
Compreendi que a escrita me levou a buscar minha individualidade. Antes, tentava viver personagens que agradassem os outros. Apaguei muitos( ouvi até gritos de certos personagens grotescos, que os considerava super originais na época) e continuei com outros que tinham boas ideias, quem sabe um dia,  irei melhorá-los...
Por enquanto, não tenho vontade de escrever.  Agora, só quero observar esta lua cheia pela minha janela e curtir o silêncio da madrugada.

terça-feira, 26 de junho de 2018

FRONTEIRAS




- Muitas vezes, não consigo escolher as palavras certas.  Quero dizer como me sinto, mas, elas ficam embaralhadas na minha frente e não consigo pescá-las. Tentarei lhe explicar... Há fronteiras que a gente não pode ultrapassar, pois, não tem como voltar atrás.  Está entendendo?  Quando me deparo com estes limites, tenho medo de deixar de ser eu e me tornar outro ao atravessá-los. Ao mesmo tempo, que sinto medo, surge certa curiosidade. Porém, se eu quiser voltar e não puder mais? Já que o mundo que conhecia não existirá mais. Até quando sou prudente ou covarde? Você já ultrapassou suas fronteiras, ainda continua sendo você? Sei que isto é meio confuso, nunca consegui explicar o que acontece comigo. Talvez, estas fronteiras sejam minha humanidade. Em alguns momentos, imagino-me fazer uma crueldade com um bicho, por exemplo, colocar um gatinho no microondas... A culpa vem galopante ao pensar sobre isto. Deve estar me achando louco, né? É que fico transbordando com tantos pensamentos que preciso colocar um pouco para fora. Tenho tanta ira, às vezes. Chega! Você é um cara legal, não lançou, para mim, nenhum olhar de censura. Não sei o que me deu, nunca disse a ninguém o que lhe confessei. Sei lá, o dia está estranho. Amanhã será outro dia, até mais. Boa noite, vizinho.

***
O vizinho nem prestou a atenção nele. Estava mais preocupado em se livrar do corpo da amante, antes de sua noiva voltar de viagem.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

DO CONTRA





"Poeminho do Contra ... Todos esses que aí estão Atravancando meu caminho, Eles passarão... Eu passarinho!"
— Mario Quintana

Com pressa para não perder o ônibus perigo para atravessar a rua de repente vejo um passarinho em cima do cavalo meu celular está na mochila até eu ligar o celular e focar ele vai embora preciso atravessar a rua minha irmã está me chamando preciso correr  a rua é perigosa mas tenho que tirar a foto mesmo que esteja longe minha câmera não é boa transeuntes com pressa... Cliquei!! A foto está uma merda preciso correr o ônibus está vindo tenho que prestar atenção para não ser atropelado os motoristas não estão nem aí para os pedestres por enquanto guardarei as fotos talvez consiga salvar alguma coisa e postar que pena que não posso comprar uma câmera boa e fotografar por aí o problema que serei assaltado e assassinado o Rio de janeiro não está para brincadeira sinto medo de viver ao mesmo tempo gosto de viver tenho que parar de pensar preciso focar para atravessar a rua minha irmã já está atravessando o passarinho e o cavalo estão sumindo da minha vista não posso parar o ônibus vem vindo...

domingo, 27 de maio de 2018

Fuga



Não adianta fugir de mim mesmo. De um jeito ou de outro, eu me encontro por aí.

Vejo meu reflexo no espelho e percebo que vivi outras vidas na tentativa de não me encontrar. 

Milhares de anos se passaram e continuo a fugir de mim. Mesmo em corpos e personas diferentes, a expressão do olhar, quando me encontro, é a mesma.

 Percebo que vivo a história de fuga repetitivamente. 

Sou um fugitivo imortal.




terça-feira, 15 de maio de 2018

TODOS OS RIOS O RIO( conto antigo 17/09/2009)






Fornece água para colheita e peixes aos pescadores, é um vazo comunicante que leva e traz os barcos dos viajantes; é o local para o batismo dos recém-nascidos. De dia, as crianças brincam; quando a noite cai, um refúgio para os amantes e para criminosos que praticam maus feitos; quando só se ouve o barulho das águas correndo. Em tempos de cheia, invade casas e aniquila tudo que encontra pelo caminho e quando volta ao normal proporciona vida às suas margens. Existem histórias bastante antigas que dizem que o ponto, onde desemboca, há um portal para outro mundo e que muitos aventureiros nunca mais retornam para casa. Outros comentam que faz bem o indivíduo jogar lembranças ruins em suas águas, transformando-se num novo ser. Enfim, transita tanto para o bem quanto para o mal e do sagrado ao profano.


quinta-feira, 10 de maio de 2018

Luzes da cidade



Iluminem meu caminho de volta para casa.

Protejam-me das crianças da noite, que acordam vorazes e perversas.

Não deixem o abismo sombrio me pegar.

Quero viver na luz e aproveitar  cada segundo da minha vida sem importância.

Vivemos em um mundo cruel, em que se mata rindo e manda queimar um corpo como se fosse pneu velho.

A cada dia que passa, o medo do caos me mata aos poucos. Não tenho mais vontade de sair de casa.

Não sei se em qualquer esquina, posso cair em  um precipício.

Luzes da cidade iluminem minha volta ao lar e que eu consiga ver realmente quem me encara do outro lado do espelho.

Salvem-me da escuridão externa e da escuridão interna, que se fundem em mim e me leva a um labirinto sem fim.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

LENA




- Lena?
-Vô, é um manequim de loja.
- Não estou enxergando bem. De longe, parece Lena.
- Quem é Lena, vô?
- Foi mais uma pessoa querida que perdi por aí.

sábado, 21 de abril de 2018

MÁSCARA-OBJETO






Não acredito, não pode ser. Deixei minha máscara em casa. Por isso, que estão me olhando estranho. Estão me vendo como sou realmente. Olham-me assustados, com desprezo e ódio. Como isto pôde acontecer? Sou o único sem máscara que anda pela rua. Nunca a esqueci, vivo com ela  grudada em mim, no banho, principalmente. Mas, hoje, tudo foi bastante estranho. Acordei super atrasado.Pulei da cama e me arrumei  correndo, nem tomei banho. Isto nunca aconteceu comigo... Estou completamente exposto, parece que os transeuntes estão tendo acesso aos meus pensamentos mais profundos. Preciso voltar e pegar minha máscara. Estou com tanto medo, que não consigo me mover, além, de parecer uma gelatina de tanta tremedeira. Não gosto desta sensação de fragilidade, quando uso a máscara, ficou no controle. Uma criança me aponta e diz para mãe: " Aquele homem está sem máscara, ele é maluco, mamãe?". Não, eu não sou doido, só esqueci de colocá-la. Será que irão me enfiar numa camisa de força? Sou um bom cidadão que trabalha, que paga imposto, só cometi o deslize de esquecer minha máscara em casa. Ninguém  percebe que ainda sou uma pessoa? Parece me veem como uma coisa amórfica. Tenho que fugir! Espera, lembro-me que meu avô me disse que  dentro da gente há uma coleção de máscaras. Não precisamos da máscara-objeto para representar nosso papel.  Bem, todos diziam que o vô era caduco. Mas, não custa tentar. Ele disse que precisa se concentrar muito. Vamos lá... Cadê vocês? Só vejo escuridão, preciso relaxar. De repente, a cidade se cala e o silêncio se comunica comigo. Começo ver várias máscaras. Com pode existir tantas dentro de mim? Vou escolher uma, peguei! Tudo volta ao normal. As pessoas não me olham mais. Sou mais um mascarado na multidão, que bom. A vida que segue. Quando voltar para casa, jogarei a mascara-objeto fora, não preciso mais dela.

domingo, 8 de abril de 2018

MIRAGEM


Imagem encontrada no google


“Homem preso”...  “O número  de  vítimas  aumenta  vertiginosamente”...    Pedófilo  desgraçado!!”...  “ Entregou-se depois de fugir  para  fora do  país”...

Todos os dias, Sofia ouvia a enxurrada de notícias.  Mas, ainda achava que estava sonhando.  Vizinhos de mais de quarenta anos viravam-lhe a cara e até destruíram o  seu pequeno  jardim, o qual  ela  e seu marido cuidavam  com  bastante zelo.

Perguntava-se por qual motivo Alfredo fez tantas coisas ruins.  Era tão cuidadoso com ela e amoroso.  Aquelas meninas tinham até idade de suas netas.
 Antes, todos admiravam e  invejavam  o  casamento de Sofia com Alfredo.  Sempre sorridentes e nunca brigavam.  Sentia-se plena,  com  um  marido  que a  cercava de  mimos.      

   Porém, quando tudo foi revelado,  Sofia  teve a  sensação que toda sua vida foi uma mentira. Pôs a boca no  travesseiro e gritou,  sentia uma dor física.

De repente, a porta se abriu  e  sua netinha correu para ela  e lhe deu  um desenho.  Sofia olhou a  neta,  que lhe sorri. Compreendeu estar errada,  sua trajetória  não foi  somente  miragem.  Entendeu que  possuía  uma  família  de  verdade. Relembrou os momentos felizes  e  não  se  sentiu  mais vazia. 

Finalmente, conseguiu levantar da  cama. Abriu as  janelas,  a vida  lá fora continuava em movimento.  Seguiu  os sons  que  vinham  da sala.

Todos estavam  lá,  esperando-a.  Emocionou-se,  nem  tudo  foi falso.       


Barriga errante( conto antigo)




Essa é a história da minha barriga.
Deseja a liberdade plena. Revolta-se, quando coloco o cinto na calça. Sente-se estrangulada e se estufa ao máximo, até ceder o cinto.
Ela quer ser dona dela mesma. Eu a reprimo.
Gosto dela, porém, não posso permitir, que ela se revolte contra mim.
Tento dominá-la. Ela resiste. É uma guerra silenciosa e cruel.
A paz dessa batalha, talvez, só irá acontecer, quando nós dois morrermos.
Ou não, nossos espíritos continuarão a lutar.

domingo, 25 de março de 2018

NOVA COMPULSÃO DO MOMENTO( IDEIA RECORRENTE)





- Tento com todas as minhas forças lutar contra minha obsessão. Mas, minhas mãos ficam suadas, sinto falta de ar e desejo incontrolável de me jogar pela janela. Briguei com minha família inteira e amigos, por causa desta minha compulsão. Já me disseram que estou muito doente. Eles não me compreendem, tirar selfie é a única coisa que me faz bem. Se eu pudesse, ficaria eternamente tirando selfie. Por favor, parem de me chamar de maluco! Eu não sou maluco. Só gosto de me fotografar. Fiquei sabendo, que me interditaram para me internar. Gente me explique como posso tirar selfie no manicômio? Me deixem tirar selfie e postar nas minhas redes sociais, cansei de lutar contra este desejo incontrolável. Os likes que eu recebo me torna vivo! Preciso de muitos likes para respirar bem! Eu sou um cara normal, por favor. Não quero usar esta camisa de força cafona... Bem... Se é inevitável, alguém tira uma "selfie" minha de camisa de força, vou bombar nas minhas redes sociais. Será que se eu fizer um biquinho, ficarei melhor na selfie?


domingo, 4 de março de 2018

- ALICE...




Por que escolheu este lugar que não tem internet?  Não tem como postar nada,  Alice.  Alice, você sabe que adoro compartilhar tudo que eu faço, Alice. A cada  minuto que não recebo like, sinto uma dor descomunal, Alice. Vamos embora daqui, sem likes, eu não existo Alice.  Por que continua deitada no chão, Alice? Não a empurrei por querer, foi um esbarrão. Alice, você sabia que não posso ficar sem internet.  Preciso me conectar e sempre atualizar minhas redes sociais, Alice.   Alice está me ouvindo?!  Desculpa por alguma coisa que eu fiz, você sabe que quando fico sem postar nada,  tenho  um  terrível mal humor que me torna outro. Alice para de palhaçada, sai do chão! Olha que tirarei uma foto de você assim, toda desconjuntada e colocarei uma legenda bem engraçada, do jeito que é vaidosa não irá gostar. Alice vem logo!  Alice, por que está tão fria? Alice, não queria fazer isso.  É que fiquei com  tanta  raiva  de  não  poder  postar e  receber likes,  que fiquei  maluco.  Alice  me perdoa! Queria tanto tirar  foto de nós  juntos,  a  gente  recebia tantos  likes.  Muitos comentavam que  éramos um  casal perfeito. Meus Deus, serei preso  e  não poderei mais compartilhar  e ninguém mais vai me  curtir... NÃO, o que quero dizer,  é que nunca  mais verei você,  Alice,  meu amor.  Como eu gostava  de  ver  a  inveja  dos meus amigos,  quando eu postava foto  de  nós dois juntinhos na piscina ou na  praia. Me  achavam um homem de sorte. Alice...

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Trollador





Bom pai, marido, filho e irmão.

Mas, quando entra nas redes sociais, vira um trollador, lançando ofensas gratuitas por aí.

domingo, 28 de janeiro de 2018

PRESENTE DE DEUS...




Ele apareceu em um dia de muito calor.  Ana o olhou nos braços de Antônio e o odiou. Mas, queria salvar seu casamento e concordou cuidar do filho da amante do marido.

Quando cuidava do bebê, parecia que segurava uma bola de  fogo. A criança não parava de chorar. 

Com o passar do tempo, Ana começou a se acostumar como o bebê e a produzir leite nos seios, mesmo com os filhos já crescidos.  Quando deu por si, afeiçoou-se a ele.

 A partir daí, descobriu que o amor pode vir aos poucos e a ser construído.  Diferente daquela concepção do amor à primeira vista, o qual aconteceu com seu marido e filhos. Tornaram-se unha e carne e este  acontecimento deixou a  família perplexa.

Tinha me esquecido  de dizer o nome do menino. Chamaram-no de Théo. Sempre fora um peixe fora d’água. Não gostava das brincadeiras de garotos, preferia ficar com Ana, aprendendo a cozinhar e a costurar. O pai ficava irado e, quem o protegia das pancadas, era Ana. Os outros filhos sentiam ciúme, mas, uma mãe sempre defende o filho mais frágil.

A cada dia, o clima da casa foi piorando.  O pai não suportava o jeito de Théo. Ana resolveu fugir com ele, no meio da noite e rompeu com a família.  Foi uma época difícil, seus outros filhos reataram relações com ela anos depois.

Por coincidência, “às pazes”, aconteceu quando Théo arranjou um bom emprego como estilista e começou a ajudar os irmãos, inclusive, os sobrinhos.  Quando o pai ficou velho e senil, Théo e Ana resolveram cuidá-lo até seus últimos dias de vida. Os outros filhos não podiam ficar com ele.

Ana amava todos os filhos e netos. Costurava para eles e fazia aquele almoço de domingo.  Entretanto, em relação ao Théo, sentia-se grata a ele, por se transformar numa pessoa melhor quando o conheceu. 

Théo adoeceu e Ana ficou com  ele  até  o  fim, mesmo com sua idade  avançada. Suas últimas palavras para o  filho:
“ Presente de deus para mim.”    



      

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Desaparecer




Sente que sempre perde algo, porque não consegue acompanhar as listas de indicações de livros e filmes que não podem deixar de ler e assistir. Corre esbaforido para ler um livro de certo escritor que morreu e o qual os críticos dizem o quanto foi importante. Ou assiste a um filme cult, porém, não consegue compreender ou curtir como os outros. Torna-se desértico e o que gostaria de ser é uma miragem cada vez mais inatingível. Fica dias sem fazer nada, bloqueado. Tem a sensação de desaparecer, pois não sabe quem é realmente. Viveu a idealizar a si mesmo, colocando padrões muito altos de alcançar.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Quando tudo parecia bem...



Alguma coisa o fazia lembrar-se do passado, principalmente, de Marta.

Por que ela não o  esperou? Conseguiria melhorar a situação. Seria logo chamado para tomar posse do concurso, que havia feito e teria um bom salário. Mas, ela não o esperou.

Anos se passaram, casou-se com outra e teve filhos. Exercitava exaustivamente amar a vida que tinha.  Só que Marta continuava a assombrar seus pensamentos e sonhos. 

Um dia, encontrou-a numa rede social. Todavia, decepcionou-se, não era mais sua Marta. Parecia ser outra.

Quando ia lhe escrever por curiosidade, o filho mais novo apareceu e lhe sorriu. De repente, a imagem de Marta se desbotou e até ficou agradecido por Marta por tê-lo abandonado, pois assim, ganhou uma família admirável.

Brincou com o menino e em seguida foi ao encontro da esposa, que lia no quarto. Beijou-a intensamente.


sábado, 25 de novembro de 2017

A estátua perto da escola



Sempre esperava ansiosa o final do ano, porque, no último dia de aula, colocavam uma blusa nela. 
O suor da camisa a aquecia de lembranças tanto tristes como alegres.
A cada ano, tornava-se menos fria e vazia.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Tóxica




Quando nasceu, a mãe pereceu e as flores murcharam. Diziam que era maldita, mas, a velha empregada não desistiu da menina.

Cuidava dela com luva, máscara e percebeu que apesar da criança ser tóxica, o  seu olhar transbordava amor. O tempo passou, o bebê tornou-se uma jovem "feinha", entretanto, era muito caridosa com todos, para não envenenar ninguém. Lembrava-se de cada morte de bichinhos, que tocou por curiosidade quando pequena. 

À medida que seu amor aumentava, sentia que se tornava mais tóxica. Por isso, colocava roupas e luvas impermeáveis e dormia num quarto especial, o qual protegia o mundo de seu veneno. Aonde ia, os habitantes acostumaram-se ao vê-la travestida de  astronauta.

Habituara-se à solidão e a achava necessária, assim, ninguém se machucava.  Ajudar a todos se tornou sua alegria e compartilhava seus sentimentos com a velha empregada que a salvou do medo e da ignorância humana.

Começou a pensar como poderia morrer em paz, sem contaminar o ambiente. Decidiu fazer uma manta especial e deu orientações para a senhora cuidar de seus restos mortais. Torcia falecer primeiro,  só confiava em sua "bá" para fazer o serviço.

Anos se passaram e as duas estavam cada vez mais unidas. Quando a velha empregada estava muito doente, pediu-lhe para tirar a máscara e lhe dar um beijo na testa. Disse para confiar nela. A outra sentiu medo, porém, cedeu ao pedido. 

Ao tirar o capacete entrou, pela primeira vez, em muitos anos, em contato como o mundo e se sentiu desprotegida. Beijou a empregada que fora sua mãe. Percebeu que a senhora não passou mal e que nada morreu ao seu redor. Estava curada. 

Então, percebeu o sacrifício que sua “bá” fez, chorando de tristeza e alegria. Agora, entendia o porquê de a senhora rezar baixinho por horas a fio em todos os recantos da casa. Apesar de usufruir a liberdade, sentia culpa.

Precisou de certo tempo para assimilar sentimentos tão conflitantes.


domingo, 15 de outubro de 2017

horário de verão


De tocaia





Está tão absorto num filme de suspense que se esqueceu de trancar as portas. Um desconhecido entra e o espreita, segurando uma faca. Mas, o vizinho viu alguém a entrar na sua casa e pega a arma...

Quem escreve esta narrativa, fica tão compenetrado que não percebe alguém entrar  no recinto. Quando está prestes atacá-lo, uma naja surge e o pica. O dono da casa além de ser escritor, gosta de criar cobras venenosas.

“Não adianta, estou sem inspiração. Vou apagar esta porra e dormir. Mas, ainda sinto que tem alguém na casa a me observar... Tomara que a noite acabe bem, apesar de sentir um peso no peito e pensar em Helena.”

“Quem ele pensa que é, para me descartar. A última coisa que verá, será meu rosto gozando ao vê-lo morrer. Daria uma cena maravilhosa para o seu livro, não? Sempre foi um escritor medíocre.”

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Akira


Quando acordo, ela não vem. Já me conhece a danada.
Ela sabe que quando acordo, continuo a dormir e o processo do meu acordar se assemelha a um parto.
Quando estou acordado totalmente, ela começa a me lamber, para tirar a placenta que me envolve.
Depois, começa brincar, a latir e a se distrair com outras coisas.
E eu corro para tomar banho e começar o dia.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Vamos embora


"Tenho um pouco de medo, medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. O próximo instante é feito por mim?ou se faz sozinho?" Clarice Lispector
                                               

- Querido, esta festa está se arrastando. Parece que estou aqui há séculos.

- Tenho a mesma impressão. Ouço as mesmas piadas e conversas.

-Vamos embora!

- Querida, será deselegante sair cedo da festa. Além que lá fora está tão escuro e deserto.

 - Prefiro a escuridão a ficar neste lugar. Sei lá, lançar-me no abismo seria melhor.

- Talvez. Não aguento mais comer e beber, sinto-me enjoado.

 - Vamos querido, estamos aqui há muito tempo.

 - E os outros, não sentirão a nossa falta?

- Estão mergulhados em si mesmos, que nem perceberão.

 - Antes de ir, só quero dizer que te amo.

- Eu, também. 

- Querido, olha pela janela! O sol está nascendo!

- É mesmo! Parece que já tinha me esquecido desta bela cena. 

Abraçaram-se e depois saíram da festa. Mesmo se sentindo livres, tinha um pouco de medo do que encontrariam pela frente.

domingo, 27 de agosto de 2017

Realidades




"Estou estranha de novo, preciso fechar bem as portas. Quero ser uma boa esposa e mãe. Mas, minha carne treme e surgem certos pensamentos. Não posso trair minha família, chega de encontros casuais. Lauro me disse que daria mais uma chance, não posso decepcioná-lo . Espera, quem é aquele rapaz de bicicleta em frente da minha casa? Olha fixamente para mim. É tão forte... Farei cara de brava, quem ele pensa que é? Amo minha família, posto isso no face várias vezes. Vou verificar as portas... Estão bem trancadas, mas, os pensamentos fluem. Vou tomar um banho bem frio e fazer um chá de camomila... Ainda bem que ele foi embora."




" Pô, que pipa massa no telhado desta casa. Mas, a tia da janela tá me olhando de cara feia. Nem vou pedir para me deixar subir, ela tem cara de quisumbeira. Mensagem no telefone, é minha mãe. Que chata, eu sei do horário da minha escola. Caralho, já tenho 19 anos... Outra pipa caindo na árvore, fui!"

domingo, 6 de agosto de 2017

DESCONHECIDOS





Pela janela do quarto, esperava seu amado. Tinha paciência e não se importava com o tempo. 

Anos se passaram e o dragão que a guardava, morreu de velhice e se tornou em uma montanha de ossos.

Um andarilho sem  rumo vagava por uma estrada e encontrou uma vereda escondida, por uma densa vegetação. Não sabia a razão, mas, o atalho parecia familiar.

Encontrou um castelo em ruínas e uma montanha de ossos ao lado. Ouviu uma senhora lhe chamar pela janela da torre, convidava-o para entrar.

A idosa ao vê-lo correu e o beijou. O andarilho não se assustou, pressentiu que o encontro estava escrito. A desconhecida faleceu em seus braços e ele a enterrou com um afeto que nunca sentiu por ninguém.

Olhou ao redor e “só havia morte”, pensou. Entretanto, viu os animais caçando e a nutrir suas crias.  A vida continuava fluindo como um rio. Apanhou tudo que encontrou de valor e seguiu seu caminho.

Aproximou a mão no peito, para sentir o colar que tinha retirado da senhora. Pela primeira vez, não se sentiu sozinho. Transbordou-se de amor.


Conto ao som: