terça-feira, 19 de março de 2019

ENTRE OS MORTOS E OS VIVOS( CONTO REVISITADO)






Desde que me entendo por gente, quando a noite chegava e o sono vinha, ninguém dormia. Todos ficavam vagando por aí como zumbis e à espreita de quem está acordado, para mordê-lo. Ao amanhece, todos voltavam ao normal.

 No início, tinha medo os gritos da madrugada, mas, acostumei-me com os sons que minha família emitia. 

Ao crescer, curti minha infância e juventude sem muito drama. A única coisa que me incomodava, era os gritos ou quando alguém ficava a me observar, para ser se dormiam realmente.

O tempo passou, tive mulher e filhos. Eram zumbis, também. Até quis ser mordido por eles, para não ser mais diferente. É muito pesado ser diferente dos outros, além, de não sentir nada como aquela música:
“Socorro, não estou sentindo nada.
Nem medo, nem calor, nem fogo,
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir.”[1]

Quando surgiram as redes sociais, descobri o "grupo dos acordados". Entrei em contato e conversei bastante com os integrantes. A que dialogava mais comigo era Ana e nos conhecemos no mundo real. Era casada, também, e sofria de ver os seus na madrugada, caçando os acordados.

Nós nos apaixonamos, porém, não podíamos abandonar nossas famílias. Encontrávamos um jeito para passar a noite se amando trancados num quarto de motel, enquanto os zumbis noturnos perambulavam pela madrugada.

Será que somos os loucos?! Ou pertencemos aos poucos sãos que ainda existem no mundo? 

Não consigo responder esta pergunta. A única certeza que continuarei com Ana e nos ajudaremos na travessia entre os vivos e os mortos. 








[1] Arnaldo Antunes- Socorro



quarta-feira, 13 de março de 2019

CONTATO INSÓLITO( Um conto ainda inacabado)





“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.” Clarice Lispector
“Jogue fora as luzes, as definições.
Diga o que você vê na escuridão.” Wallace Stevens

LX300: - Sonho de novo com a criatura. Vive na floresta densa. Há momentos que parece me perceber e se aproxima de mim. Mas, para e ouve o barulho do vento nas árvores. O estranho é que ouço o barulho da floresta no quarto e vejo as sombras das árvores. Mas, agora, é diferente. Fizemos contato e experimentei suas sensações ao caminhar pela cidade. É uma criatura extraordinária. Gosto de me sentir confuso, já fui fazer uma revisão dos meus circuitos. Falei tudo sobre a criatura para você. Não pode caçá-la, agora, só porque tem curiosidades de querer dissecá-la.
O caçador ouve sua história com muita curiosidade. Sempre teve inveja de seres genuínos, que vivem em si mesmos e sem o manto da moral para aprisiona-los. Queria caçar como eles, sem julgamentos.

Na mata cerrada a criatura sempre percebia cheiros vindos de outras terras e ensaiava alguns passos para fora, mas, desistia, tinha medo de se machucar. Esquecia-se do desejo repentino, distraindo-se com os outros elementos da brenha.
 Porém, em uma madrugada, foi atraída por uma caverna, que aparecera do nada na mata. Viu um corpo sem fragrância deitado na cama. A criatura o observava, ficou fascinada.  Lambeu-o, mas não sentiu nada.  Então, começou a visitá-lo sempre, quando as madrugadas se tornavam mais densas e começaram a se conectar através dos sonhos de LX300. Depois, ele interagia acordado com ela, sem precisar sonhar.
O tempo passou e, em certa madrugada, a criatura percebeu LX300 agitado. Repentinamente, sentiu-se observada. Por um triz, escapou de uma flecha. LX300 avançou contra o caçador, que o jogou para longe. A criatura avançou e olhou fixamente para o caçador, que sentiu um medo devastador por causa de seu olhar e, inclusive, ao ouvir os ruídos da floresta negra, fugiu.
A criatura se aproximou do LX300. Viu certas luzes surgindo na sua cabeça. Aflita lhe deu uma lambida. LX300 a agradeceu por mostrar um mundo tão diferente e belo. Entrou em pane e se apagou de vez e, na área atingida, uma violeta brotou.
A criatura o levou para seu lar e LX 300 tornou-se parte da mata. No final, realizou o desejo de se transformar em ser vivo.
Reconfortou-se na escuridão da floresta e nas lambidas da criatura.



domingo, 10 de março de 2019

Fugidio





 Sempre quis tatuar um passarinho. Mas, a ideia escapava e voava às profundezas do inconsciente.
Um dia, conseguiu pegá-lo. Quando o tatuou e saiu do ateliê, foi atacado por um pássaro que perfurou seu olho.
A tatuagem desapareceu e só ficou uma cicatriz com formato de pássaro.
Depois disso,  andava sobressaltado. Ouvia, constantemente, barulho de asas.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Akira





Quando o sol bate no chão da sala, ela se deita para se "bronzear". Olho para sua sombra e vejo um lobo. Curioso, pois, contrasta-se com a figura meiga da Akira.
Mas, mesmo que eu tente humanizá-la ou torná-la fofinha, o instinto primitiva de lobo está enbernado em algum recanto de sua existência. 
Ele se manifesta nos momentos em que  está distraída a tomar um banho de sol ou quando caça moscas.
A sombra do lobo parece e me encara, diz com o olhar: " Estou aqui, mesmo que tente me aniquilar, por meio de biscoitinhos e carinhos  na barriga. "
Então, começo a pensar ... Será que o afeto pode ser, também uma relação de poder?  O homem se sente o PROTETOR, inibindo a verdadeira natureza dos animais?
E eu? Tenho um lado selvagem? 
Acho que a sombra do lobo de Akira me pegou...

domingo, 10 de fevereiro de 2019

A FESTA( REVISITADO E MODIFICADO UM POUCO)






Estava numa festa em que os convidados sorridentes, elegantes começaram  a  feder, apesar do  aroma dos perfumes estrangeiros que usavam. Almejou tanto ir àquela festa, mas o desejo se desmanchou feito água no ralo. Ao seu redor, tudo  ficou  sem sentido  e  um vazio  o invadia. Teve medo de ser um  morto vivo  como  as  pessoas  da  festa.  Ele  não entendia  que mesmo belas,  tinham  algo  corrompido em seus olhos.  Eram jovens sem viço. 

Foi embora até ao ponto de ônibus. Lá havia um senhor  com uma carrocinha de cachorro quente. Ele abordou o rapaz:

- Está com fome?
- Sim.
- Preparo um do jeito que você gosta.
- Valeu. Estou estranhamento cansado.
- A festa não estava boa?
- Sei lá, senti falta de ar.
- Maltrataram você?
- Não.
- Pareciam  mortos vivos?
- Sim...
- Sei como se sentiu.  Aconteceu comigo e seu avô me esperou neste mesmo ponto de ônibus e nesta mesma carroça. Além do mais, o mesmo céu estrelado.
- Pois é, o céu está lindo mesmo. Não quero vender cachorro quente...
- Não precisa, siga seus próprios caminhos. Mas, cuidado com essas pessoas que frequentam essa festa. São criaturas ilusórias que empurram a gente para o abismo. 
- Quando chegar em  casa, dormirei cem anos.
- Roubaram um  pouco  sua  energia. Porém,  uma boa  noite de sono  resolverá.
- Quem são eles?
- Não sei. Vivem por aí, vagando de festa e festa. Procuram por algo que perderam há muito tempo. Vivem com uma eterna fome de  devorar  qualquer  coisa.  Por isso, sempre  estão eufóricos.      


Pai e filho foram embora tranquilos, o sol nascia. A festa continuou a todo vapor. 




TEMPESTEAR



Chuva forte, barulho do vento, falta de luz... Fim do mundo?

Acendo a lanterna do celular e minha sombra se projeta num quadro de um artista . Estranho, quando penso que vou me lembrar do seu nome, foge para as profundezas da memória.

Minha sombra quer ir embora. Mas, não sei se é pelo dilúvio lá fora ou por mim.

Tempesteio.

Calma, querida, como dizem: " Depois da tempestade, vem a bonança". Também, não adianta fugir através do quadro. Tudo, em algum dia, tempesteia.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

A descoberta



Sempre estranhei minha sombra ser mascarada, apesar de ser nu em pelo e na alma. Um dia, compartilhando esta curiosidade com alguém, foi-me revelado: - Você é mascarado. Todos nós somos. A vida é um vasto baile de máscaras.

Fui lançado ao desconhecido e não sei quando voltarei em mim.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Sou um homem bom



Juro! Eu não queria bater na cara da minha namorada. Estava bêbado e quando bebo só faço merda... Precisam acreditar em mim, sou um cara super legal! Quando fugi ao atropelar aquele garoto, não sabia o que estava fazendo, sabe? Só pensei na minha família e como poderia destruí-la, sabe? Sei que estava com velocidade excessiva, mas, sabe como é? Ganhei de presente do meu pai a Ferrari e queria tanto testá-la... Não sou mau, JURU. Acreditem em mim, o cadáver enterrado no jardim foi um terrível acidente. Lauro era um colega de escola, meio bichinha, e eu tive a ideia de dar um susto nele para gravá-lo tendo um ataque de pelanca e quando puz em prática meu plano, ele ficou apavorado, pulou pela janela e se eborrachou no chão. Eu e meus pais resolvemos enterrar o corpo no jardim. Sei que muitos não acreditarão em mim, mas, sou azarado e os incidentes me seguem. Juro, sou do bem! Sou honesto e do lar. Aparentemente, posso parecer esses caras superficiais e milionários, porém, tenho Jesus no coração e vou à igreja todos os domingos. Por favor!!! Não me prendam, só tenho quarenta anos, sou muito jovem e com bastante tempo para aprender com a vida e com meus erros.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Lucrécia Gertrudes


Sou uma drag queen a favor da família, da moral e dos bons costumes.
Odeio a vulgaridade que está acontecendo hoje em dia, devido à ida das mulheres ao mercado de trabalho. As mulheres precisam ficar em casa, tomando conta dos maridos e dos filhos. Além de ser obediente, recatada e do lar.
Elas são o núcleo da família tradicional  brasileira.
Essa história de que precisam estudar e ser independentes é uma mentira descabida destes maconheiros-esquerdistas-comunistas. Mulheres, voltem para as suas raízes.  Não fiquem brigando com seus parceiros, há outras maneiras de conseguirem o que desejam. Uma boa mulher nunca discute com seu marido.
Minhas queridas, vocês sabem que eles são meninos mimados e briguentos que só querem a atenção. Precisam ser pacientes e amorosas, pois, são suas segundas mães.
Por isso, é importantíssimo criar as meninas para estimularem seus instintos maternais. Foram feitas para cuidar e servir, minhas lindas. Fico triste de ver algumas de você tão vulgares e obscenas. Aí, reclamam quando um cara tenta agarrá-las.
Tenho consciência de que muita gente questionará minhas ideias, devido a minha condição.
Mas, nunca  quis ser drag queen. Foi macumba de uma vizinha. Ela tinha inveja do relacionamento dos meus pais. Dizem  que ela ficou nua e arrancava as tripas de uma galinha com os dentes. Cenas impactantes...
Acompanha-me nas redes sociais, sempre trarei dicas para vocês que não almejam mais ser feministas, para se tornarem femininas.
Por um mundo sem marxismo e putaria!!!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Ao vento


Seu fim estava próximo, decidiu imprimir seus textos inacabados, soltando-os ao vento.

Deu o último suspiro, enquanto quase todas as histórias foram adotadas e eternizadas por outros escritores.

Só teve um texto que continuou ao vento, pois, encantou-se com a liberdade fugaz de viver.

Tornou-se pássaro.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Comerei rabanada




Tenho uma ideia, preciso escrever, espera, tem um fio de cabelo no teclado. É complicado tirar o fio entre as teclas.  Lá vou eu... Preciso ver rapidinho  meu Instagram... Ganhei duas curtidas e um comentário que, na verdade, é um convite de alguém para  segui-lo.  Preciso  focar na ideia,  que  é o  ponto de  partida para um conto.  Notificação do facebook,  deixa ver rapidinho... Nada de interessante. Voltando ao princípio da minha história... Mensagem no  whatsapp... Saco, mais uma corrente de mensagens  fofas  de  final de ano. A ideia do conto está desaparecendo,  como começa mesmo? Vou ao insta para esfriar a cabeça... Desgraçados! Ficam  posando  felizes  em  paisagens  exuberantes,  só  para  me  mostrar  que tenho  uma  vida  de merda!  Juro que não é  inveja,  mas,  este  povo ostenta  muito. Com certeza, não são tão felizes assim. Uma nota: Não sou um “stalker”, só gosto de xeretar a vida dos outros nas redes sociais, pois minha vida não é tão interessante.  Empa! Um comentário na minha foto: “Oi, conheça meu perfil e saiba mais da dieta das celebridades...”. Escroto!  Quem  lhe disse  que quero emagrecer.  Vou  bloquear! E a  minha ideia que se  tornaria  um conto,  não consigo  me  lembrar  mais.  Outra notificação do face... Nada demais,  de  novo.  Já sei, queria escrever um conto inédito sobre o ano novo.  Talvez, ouvir uma música me faça ter  uma “brainstorm”... Vou  flanar  um  pouco no Youtube... Há novidades  do Netflix... A ideia se perdeu em mim.  Ouço fogos e o ano novo chegou. Sinto que vivi várias vezes esta situação.  Deixa para próxima.  Comerei rabanada. 

domingo, 23 de dezembro de 2018

UM CONTO DE TERROR NATALINO...




Imagem encontrada no google


Foi tudo tão estranho que nem sei se  vou  reproduzir  os  fatos fielmente.   

Nesse dia, o calor era insuportável.  Todo mundo tomava  banha  de  mangueira  para  se  refugiar.   Tinha a sensação de que minha mente iria se dissolver.   Um cheiro  de  fossa  pairava  no  recinto.  No calor tudo apodrece rapidamente e era insuportável o  cheiro  de  suor, mesmo  disfarçado  com  desodorantes e  perfumes.  O céu azul e  sem nuvens  tornava-se uma maldição.

Ao anoitecer, a ceia estava  preparada  e  o ar-condicionado ligado. Era um oásis para gente.

Todavia, quando a noite avançava,  o aroma de putrefação  invadia  o ambiente.  Não adiantava fugir da realidade.  De súbito, ratos, baratas, moscas  e formigas  dominaram   a  casa  por um  átimo  de   segundo,  devorando qualquer  coisa  que  vissem. 
As lembranças desse dia ainda estão vivas em mim. Consigo ver nitidamente as criaturas nojentas comendo a ceia em cima da mesa, depois, avançando em todo mundo e os gritos. 

Consegui sair da casa  e  corri  o mais rápido  que  pude.  O mundo que eu conhecia era outro.   Vi ondas de criaturas repugnantes transformando a  cidade em  ruínas  e  o cheiro  de podridão  cada vez mais forte.    
De repente,  meu corpo virou  uma pequena  montanha  de   bosta.

***
- Pronto, já contei  uma história  de  terror natalino.  Pra  cama,  já!
- Não tive medo,  ela  não  valeu.
-  Estou  sem inspiração.
-   Pois é, uma  história super  boba.
-  Vai  dormir  logo.
-  Tá... Espera!   Sinto  um cheiro  esquisito  e  vi algo  passar  rapidamente  pela porta. 
-   Realmente,   que  cheiro fedido é este?
-  Tem um rato  enorme  na árvore  de Natal!
-  Que  nojento! 
-  Precisa  matá-lo.
- Acho melhor a gente se  trancar  no quarto  e  ligar o ar.   Neuza vem amanhã e dará um jeito  nele.
  

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

" DOCES LEMBRANÇAS"( CONTO REVISITADO)





Quanto mais velho eu fico, percebo que não sei nada. Tudo que acontece há várias interpretações. Até os conceitos básicos do bem e do mal, variam de acordo com diferentes pontos de vistas.

Estou perdido e talvez nunca me ache de verdade em um labirinto de janelas, que são prismas  sobre  este  mundo,  onde vivo.
 
De repente, lembro-me do menino que eu era. Adorava passear na fazenda dos meus avós. Era tratado com um “reizinho” por todos. Quando brincava com os filhos dos empregados, sempre era o líder.

Minhas festas de  aniversário  eram  surpreendentes.  Bem, no meu olhar de garoto, a época era boa e me sentia  feliz por fazerem  todas  as  vontades.  Mas, um dia, um monte de homens armados invadiu a fazenda, prenderam meus pais e meus avós. Os empregados com seus filhos se abraçavam contentes.  Uma antiga empregada abraçou-me e a ouvi pedir para os caras armados me deixasse ficar com ela. 

Então, fui morar numa casa simples da periferia. No início, fiquei revoltado, queria minha vida antiga de volta, mas, com o tempo, fui me adaptando e os dias na fazenda se tornaram um belo sonho. Anos depois, quando voltava do trabalho, na porta de casa havia uma jornalista. Queria me entrevistar sobre minha família biológica. Minha mãe de criação apareceu e a expulsou e veio conversar comigo.

Bem... É lógico que eu sabia de tudo, porém, não queria ter consciência disso, principalmente, perder as doces lembranças da infância. A verdade veio dilacerando meu reino particular.

Minha verdadeira família escravizava as pessoas para trabalhar na fazenda. Todos me tratavam bem, porque eram obrigados.  Fiquei alguns dias à deriva.
Minha mãe adotiva me disse para tocar a vida. Seguirei seu conselho. Quem sabe um dia me encontre por aí. 


terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Conto revisitado






Tentei reescrevê-lo. Achei que estão versão  ficou um pouco melhor. 


INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA

"O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente" Sigmund Freud




André adorava pintar paisagens e muitos o achavam cafona. Sua namorada, uma crítica de arte, dizia que precisava mudar urgentemente de estilo, já que a pintura acadêmica ficou muito “demodê”. A mãe de André não concordava, adorava os quadros do filho, porque transmitiam paz. 

Quando a noite surgia, André tinha pesadelos e ao amanhecer desenhava as criaturas estranhas e as trancava numa jaula nos fundos da casa. Somente a mãe tinha acesso ao lugar, para alimentar os seres taciturnos.

Com o passar do tempo, a noiva percebeu que havia um segredo na casa e resolveu investigar.   Seguiu André e encontrou um  esconderijo,  onde  havia uma jaula com  um monte de pinturas  penduradas nas grades.  Quando observou, ficou admirada com a coleção de desenhos grotescos que lá habitavam. Aproximou-se da jaula, de repente ouviu rugidos apavorantes. Ficou paralisada de medo. O cadeado da jaula se rompeu.

Na manhã seguinte, ao encontrar o corpo da amada estraçalhado se desesperou e foi pedir ajuda à mãe.

 - Meu filho, além das criaturas fugirem, precisamos nos livrar do corpo.  

- E o pior que surgirão outras criaturas através dos meus pesadelos.

- André, é só reforçar o cadeado e ter mais cuidado para ninguém descobrir. Entretanto, um problema por vez.

Um vulto passou rapidamente entre eles e sentiram um odor forte. Não estavam sozinhos.  




segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

INVISÍVEL




Sentia-se assim, já que todos o esbarravam na rua. Vivia tão calado que nem se lembrava de sua voz.  Com o tempo, adquiriu o hábito de seguir e a observar as pessoas. O vazio que sentia, diminuía  brevemente. Nas festas de finais de ano, começou a entrar de penetra nos lugares, para se alimentar das alegrias dos outros. 
Em certo natal,  entrou numa casa e, como  sempre,  ninguém  o  percebeu.   Explorou a casa, até encontrar  uma menina  que lhe  sorriu.  Pegou em sua mão e o  levou  ao quarto.  Seu corpo estremeceu, há tempos que ninguém o tocava. Tentou lembrar-se de  alguma lembrança remota, mas, só havia uma tela em branco.
Ela mostrou os brinquedos novos e não parava de conversar.  De repente, alguém a chamou.  Minutos depois, ela voltou com sua mãe para apresentar o novo amigo. A mãe  pensou que  se  tratava de  um novo amigo imaginário. Mandou a garota brincar com os primos e fechou  a janela  escancarada do quarto  para não entrar  insetos. 
Ele correu com o coração quase saindo pela boca. Sentia felicidade e medo ao mesmo tempo,      por se  visível  por segundos. Perguntava-se como agiria  se todos voltassem a vê-lo, acostumara-se a não ser visto.  Um  grupo de  homens e mulheres  passou por  ele e lhe desejaram  um  feliz natal.  
Retribuiu e quando ouviu sua voz, um  onda  de  alegria o  arrebatou.





****


domingo, 2 de dezembro de 2018

FÉRIAS DE MIM





De repente, olho para uma menina que me chama de vovô. 

Assusto-me e me olho no espelho e meu corpo está bastante velho. Quando não aguentava mais o cotidiano, viajava para fora do corpo e o alugava por temporadas. 

 Mas, nessas idas e vindas perdi a noção do tempo.

RELAÇÃO INESPERADA( conto antigo e revisitado)

Imagem encontrada no google


Ela chega a casa. Vai direto ao quarto rosa, mas não encontra ninguém; só o cachorro deitado na cama. O rosto fica tenso, mas ao olhar para o bicho não consegue brigar.


Acorda ao ouvir uivos no quarto rosa. Os olhares da mulher e do cão se encontram, sofrem a mesma dor. O animal se aproxima, mas ela se afasta.


O animal não quer comer. Fica deitado no chão a olhar para a porta. Ela respira fundo, está com a coleira nas mãos. Vai devagar e consegue colocá-la no cão. Caminham um pouco.

Aproximam-se a cada dia. O cachorro  lhe faz festa  e ela devolve com um sorriso espontâneo.

O quarto rosa continua intacto. Fotos de viagens espalhadas por todo lugar e a cadeira de rodas. No dia seguinte, o quarto rosa não existirá mais.

Ela e o cachorro sempre passeiam pelo bairro. Os vizinhos estranham, pois ela sempre demonstrou sentir medo de bichos. Ambos usam um pingente com as iniciais da dona do quarto rosa que agora está na companhia dos anjos.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

PIERRE E CALEBE( Conto antigo)





Helena quando conheceu Pierre se encantou. Era um homem bonito,  bondoso e nunca perdia a paciência. O único problema era que Pierre tinha a foto do irmão falecido e gêmeo (Calebe) por todo apartamento e Helena se incomodava um pouco com este fato. Mas, Pierre era tão especial, que Helena relevou.
O tempo passou... Helena se casou com Pierre e foi morar no apartamento dele. No início, queria fazer uma reforma no lugar e tirar as fotos espalhadas de Calebe.
Todavia, não queria magoar os sentimentos do marido e resolveu deixar para lá, mais uma vez.  Além da bondade de Pierre, ele foi o único homem que satisfez Helena na cama e a jovem se sentia completa.
Na verdade, Helena não se entregava para Pierre. Quem a possuía era o espírito de Calebe. Pierre amava Helena, mas não gostava de sexo. Ele  passava a madrugada inteira, dando comida aos mendigos, já que sentia um prazer sem limites, quando ajudava  ao próximo.
Ao amanhecer, Pierre entrava no quarto de mansinho para não acordar Helena, que dormia tranquilamente. Olhava agradecido para foto do irmão e Calebe retribuía com a fisionomia de cumplicidade.

QUERIDO DIÁRIO( VERSÃO ANTERIOR ( 2014))


Às vezes, gosto de revisitar contos antigos meus e fico surpreso  com  a imensidão de bosta que produzi. Já quis escrever coisas engraçadas que saíram  um tremendo mau gosto e tive épocas  que me achava super original...  Quanta pretensão tola!!!
Neste conto, tentei reescrevê-lo com a intenção de treinar a escrita. Com certeza nunca será publicável. 
Por fim,  aprendi  a não me levar muito. Postarei no meu blog  e  pronto. 
É meu espaço para exercitar, mesmo.

Imagem encontrada no google


QUERIDO DIÁRIO
Resolvi fazê-lo porque estou desesperada com minha vida caótica. Então, tento colocar minhas ideias em ordem e me entender como indivíduo. Sigo o conselho do meu saudoso psicanalista, que foi hipnotizado pela minha mãe-bruxa-secular para ser escravo sexual. Coitado, para se livrar dela, jogou-se de um viaduto.
Bem, meu amigo, minha família é repleta de criaturas mágicas. Meu pai é um vampiro que sempre matou meus namorados e ele tem um hábito horrível de roubar minhas roupas. Quer ser eu e isso o angustia. Por isso, qualquer homem que se aproxima de mim, meu pai o deseja e o mata. Além do mais, pedi minha mãe a lançar um feitiço para proteger meu armário. Estava ficando sem roupa.
Meu irmão é um lobisomem e meio alienígena. Como já disse, mamãe é uma bruxa ninfomaníaca. Ela aprisiona todas as espécies de machos para serem servos sexuais. O mano é um cara bacana, mas quando fica bravo, mata povoados inteiros.
Sou a única normal da família e triste por não ter nenhum amigo ou namorado. Fugi de casa e uma comunidade religiosa me acolheu. Eles me consideram muito especial e até faço parte do coro da igreja.
O pastor me disse que preciso perdoar. Então, resolvi passar o natal com minha família, já que é uma época de solidariedade e perdão.
Será que estou sendo rancorosa, meu querido diário? Desejo tanto desnudar minha alma e perdoar minha família!!!
Bem, resolvi chamar Augusto Emanoel, meu noivo amado. Ele quer conhecer muito minha família e passar o natal comigo. O que acha, amigo diário, será que dará certo?
***
Ah, meu amigo, quero lhe mostrar um poema antigo que escrevi e que minha professora de literatura me falou que era muito profundo e intenso. Coitada, ela foi assassinada pelo meu irmão, porque não quis ficar com ele.

Sou menina travessa
Mas, quando quero, sou mulher sensual
Porém, posso ser fera faminta
Logo, menina- travessa-mulher-sensual-fera-faminta

E aí? Será que sou uma poetisa, querido diário?
***
Querido diário, as festas de final de ano passaram. Percebi que não posso me reconciliar com minha família. Todos tentaram devorar Augusto Emanoel e tivemos que fugir pela alta madrugada.
Minha mãe mandou suas bestas de estimação para nos perseguir. Foi horrível e ao mesmo tempo muito triste.
Porém, encontramos algumas pessoas vestidas de branco e que faziam oferendas numa encruzilhada. Elas nos ajudaram sem pestanejar e unidos, mesmo possuindo crenças diferentes, conseguimos fazer a barreira do bem, que defendeu a todos de todo mal de minha família diabólica.
Meu querido diário, o amor venceu mais uma vez ao ódio cruel. Eu e meu noivo estamos muito bem no momento. Além, é claro, ganhamos novos amigos.
Entendi que o amor significa diversidade e foi muito bom descobrir esta verdade divina.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Passarinho




Voa por aí e depois retorna para meu peito.
Sua cantoria me ressoa por inteiro, transbordando-me vida.
Um dia, não voltará e irei perecer.
Ele sou eu.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Mortos ou vivos







Vivian está no quintal para se escapar do calor. Sempre está à espera de algo. "Sinto que sou a única pessoa viva a atravessar esta madrugada. Ou estou morta ou esquecida nesta casa.".
Ouve um barulho repentino e se assusta.  Fica surpresa ao sentir qualquer coisa, depois de tantos anos. Constantemente ficava em dúvida se estava  vivia ou presa em um sonho.

Wanderson foge por muito tempo e nem tem mais a consciência dos motivos de sua fuga. 
"Assalto, tiros, Luiz é preso, Vânia atravessa a fronteira, meus pais dizem que estou morto para eles. Vivian...".
Se assusta, porque pensou em Vivian. Percebe estar na frente da casa dela.
Vivian é um pouco mais velha que ele e foi sua professora particular. Lembra-se do cheiro agradável que exalava dos cabelos longos da moça (professora particular). Ela o tratava muito bem, lhe oferecia lanches e lembranças de aniversário.  

 Vivian reconhece Wanderson pelo olhar. O medo que sentia passa.
- Rapaz, por que não apertou a campainha?
- Desculpa, se quiser, vou embora.
- Não. Está todo suado,  precisa de um banho. Pegarei umas roupas velhas do meu irmão. Sabe, ele foi para Portugal depois da morte de meus pais. Vem comigo.

Wanderson se esvazia  de seus pensamentos. Por um momento, parece que a ducha os leva para o ralo. Depois começa a pensar o que o levou a chegar nesta situação. Tem a impressão de que nunca segurou as rédeas de sua vida. Deixa-se levar pelos acasos.

Pensa em Vivian novamente e de como ficou com raiva por não ser correspondido. "Jurei nunca mais pisar nesta casa e voltar a vê-la. Ainda tem aquele cheiro nos cabelos.". Percebe-se excitado.

Vivian prepara um lanche para o ex-aluno. Sente-se estranha ao pensar em Wanderson. Como ele está forte... Sabia que ficaria assim.". Arrepia-se, não gosta de pensar certas coisas, "parece que sou outra". Todos que a conhecem a consideram como generosa e correta. Vivian incorpora impecavelmente este papel, mas, há momentos em que ela se acha incompleta. Não consegue experimentar intensamente os sentimentos, "parece que estou num palco representando uma  personagem única".

Nunca entendeu os motivos pelos quais Wanderson desapareceu. Adorava ensiná-lo. Pensava nele mais velho. Seria um cavalheiro e iria tratar bem uma mulher...

Agora, mesmo diferente do que imaginava, Vivian se encanta com
Wanderson e junto  vem a vergonha. “Estou esquisita. Não  controlo  meu  corpo  que não  para de  vibrar”. 

Wanderson vai à cozinha e se depara com a mesa posta. Lembranças já mortas ressuscitam. Vivian se  senta, também...

- Rapaz, você cresceu.  Por onde andou?
-  Vaguei por aí, que nem  uma alma penada.  E  você?
-  Continuei aqui,  fincada nesta casa. Meus pais se foram e meu irmão mora em Portugal com a família. Sou uma alma penada que tenta  sobreviver  a mais uma madrugada calorenta... Estou  curiosa,  por  que  veio?

-  De repente estava em frente a sua casa e percebi  que  precisava te ver. Acho que temos algumas questões a resolver.

- Bem,  você desapareceu do nada e não entendi o motivo.

- É que eu te amava.

-  Como?  Era só  um menino.

-  E daí? Eu a amava e pronto e você só queria brincar de professorinha boazinha.

- Eu não sabia de seus sentimentos, me desculpa.  Aliás, eu nunca pensei  que despertaria este sentimento em alguém. Como vê, estou sozinha. Está vingado?

- Não vim aqui por vingança. Queria vê-la mais uma vez. Por que nunca se casou?

- É que sou complicada. Não sei como explicar, procuro por alguma coisa e passei  muito tempo nesta busca. Muitos me acham exigente, mas realmente não sei. Nunca me apaixonei por ninguém  e fui  levando minha vida. 

- Engraçado, o tempo todo eu era insatisfeito  e ficava procurando procurando...

-  Também  havia meus pais e meu irmão.  Sempre me consideraram perfeita e nunca quis  macular  a imagem  que eles tinham de mim.  E seus pais?

-  Morri  para  eles.  Tomei muitas atitudes equivocadas sem pensar. Fui sendo levado e me enrolei  num emaranhado que não dá para  sair. Até achei já estar morto. Porém, quando a vi...

-  Pare com isso!!! É um bom homem, eu o conheço.  Também me sentia morta até reencontrá-lo.

Conversam animadamente, trocam confidências e nem percebem que o amanhecer surge com os cantos dos pássaros.

Então, os primeiros raios do sol iluminam seus beijos. Seus corpos se encaixam perfeitamente e eles aproveitam cada segundo, já que acabam por se descobrir momentaneamente vivos. 

Mesmo envolvidos no gozo, ouvem os barulhos da cidade recém-acordada e não  se  sentem mais almas solitárias. Estão conectados com a  vida, por enquanto.  
...

A empregada entra na casa vazia. Costuma fazer faxina a pedido do patrão que mora em  Portugal.  Ao entrar acha o lugar desarrumado, principalmente o quarto de Vivian. Parece que alguém invadiu a casa. Ao ligar a tevê escuta que um bandido morreu ali perto.