domingo, 26 de julho de 2020

ÚLTIMO PÔR DO SOL


Apareceu de repente no quintal, depois do auge da pandemia de zumbi. Arrastava-se lentamente. Era uma figura deplorável. No início, ficamos assustados, mas, depois, consideramos a situação patética.

Jogávamos pedra e tirávamos selfie com ele. Não o matamos rapidamente para não acabar com a diversão, além de ser um atrativo a mais nas festas. Nós o torturávamos frequentemente, até esquecê-lo rastejando pelo quintal.

Numa manhã de verão, acordei bem cedo para ir à praia. Comi um cereal rapidamente e ao abrir a porta, senti uma mordida no pé. Quando olhei, vi que era o morto-vivo. Desesperado, eu o golpeei de faca vária vezes na cabeça.

Depois do pavor e de me sentir cair num abismo, percebi-me mais vivo. Como se antes da mordida estivesse entorpecido. Achava-me tão indestrutível e jovem, que nunca considerei acontecer algo semelhante comigo. Sempre rodeado de amigos e, neste momento, sozinho comigo mesmo. 

Resolvi ir à praia. Não percebi que já entardecia.  O pôr do sol estava particularmente maravilhoso. Eu o apreciava sem tirar selfie, talvez, por isso, conseguia perceber tantos detalhes.

O mar estava de ressaca, as ondas me engoliam. Começava a me sentir febril. Os últimos raios de sol me iluminavam e me aqueciam nas profundezas. Antigas e esquecidas lembranças emergiram na consciência, chorei.

Antes da escuridão, vejo minha última lembrança...

O último pôr do sol, o mais belo de todos.


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