domingo, 30 de setembro de 2012

Mistério




MISTÉRIO

No computador, Eduardo guardava em segredo o arquivo de seu livro de contos que nunca publicou. Quando morreu, os contos apareceram misteriosamente num blog e a cada dia uma história era postada. O autor do blog: DUDU OLIVA O BELO O LINDO DE LA VEGA

***
O mais curioso que o autor nunca teve blog para programar os posts de seus contos.

CONTO ANTIGO


Imagem encontrada na internet

QUIMERA

– Olá moça bonita, seu nome?
– Sonho.

Acordei com um papel nas mãos e com um número de telefone. Depois de três chamadas tive impressão que alguém atendeu, mas não disseram sequer uma palavra. Ouvi as gaivotas e ao longe um motor de barco.  


sábado, 29 de setembro de 2012

CONTO ANTIGO PARA QUEM AINDA NÃO LEU




Steven Kenny



MICRONOVELA 


Capitulo I 

Helena concebe uma melancia e, em festa, reparte com todos.

Capitulo II

Helena vai do prazer à melancolia. Querem que conceba mais e mais melancias. Gaivotas rompem no interior do ventre e a libertam. Desaparecem no horizonte. 

Capitulo III

–Quem é você, Helena?
–Sou o meio que não tem começo e nem fim.

Capitulo IV

Helena caminha numa floresta. Cercada por bandidos, instintivamente dissolve - se no solo. As árvores movimentam-se e as feras avançam. O coração de Helena está em contato com o espírito da floresta, O DIVERSO UNO.

Capitulo V

" ... só querem refletir. Preciso retornar às sensações."

Capitulo VI 

Helena vê uma casa e a reconhece. Entra, todos ficam em festa...

mensagem






Repito: Amigos, desculpa. Vocês não existem, são personagens inventados por mim.

***

Teve uma revolta na rede social em que era inscrito. Muitos o xingaram e disseram que existiam sim.

sábado frio



 Imagem encontrada no google





NUM SÁBADO FRIO 

"Ouço o vento e já já os fantasmas baterão na minha janela." 

De repente, ouve alguém dizer por de trás da janela: 

- Filho, está há dois dias sem tomar banho, que porcaria!

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

INVENÇÃO DA MEMÓRIA



De Salvador Dalí, A persistência da memória

"A memória é essa claridade fictícia das sobreposições que se anulam. O significado é essa espécie de mapa das interpretações que se cruzam como cicatrizes de sucessivas pancadas. Os nossos sentimentos. A intensidade do sentir é intolerável. Do sentir ao sentido do sentido ao significado: o que resta é impacto que substitui impacto - eis a invenção." Ana Hatherly, in 'A Cidade das Palavras'

I.


Dudv: “ Lembra-se de quando a gente se perdeu em Praga?”

Ana: “ Nunca estivemos lá.”

Dudv: “ Foi com Antônia então. Caramba! Fundi vocês duas nas minhas lembranças.”



II.

 De repente, me vejo em você. Continuo jovem e me comportando de um jeito que nunca me dei conta. É assim mesmo que você me via? Agora, quem sou? Sinto-me outro morando em suas recordações e sonhos.


III.



- Lembro-me que a casa dos meus avós era enorme e que brincava por todos os cantos. 

- Filha, a casa dos seus avós era pequena. Quando somos pequenos, enxergamos tudo grande e com muita fantasia.

IV



– Quem é este rapaz na sua carteira?

– Não percebe que esta foto é antiga?

– É alguém do passado?

– Está brincando? É você há vinte anos.

– Mas porque não colocou uma foto recente minha? Neste tempo, eu era outro.




Aliem






Aliem

Você pode ser eu, por isso o compreendo. Mas, quando o encontrar, irei matá-lo. Quero viver como você.

EM CERTA REDE SOCIAL


Imagem encontrada no google



EM CERTA REDE SOCIAL

Por favor, alguém fala comigo. Estou desesperado, desempregado e sozinho. Preciso de ajuda URGENTE. Deposite sua contribuição na Agência... e liga para esse telefone .... ou me escreva um e-mail...

Minutos depois...

Luzclarita@: Querido, já depositei o dinheiro. Venha conversar comigo na minha casa meia noite para ouvir a palavra.

Foi e nunca mais voltou.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

POR QUÊ?


Como Fazer um Avião de Papel

Imagem encontrada na internet



- POR QUE QUER IR EMBORA?

- Não quero viver mais no seu sonho.

- Mas, você me pertence.

- Não!

- Mas, como se libertará?

- Desenha-me, depois faz um avião de papel e me joga pela janela.

conto antigo para quem ainda não leu


Imagem encontrada no google




PALHAÇO 

Circo cheio, crianças felizes gritavam. Uma moça espera a apresentação. Quando o via sentia-se orgulhosa. Ele tropeçava, contava piada e chutava o traseiro postiço do parceiro de picadeiro. Ao terminar o espetáculo, ela sempre vai ao seu encontro. Observava-o tirando a maquiagem, o rapaz olhava para o espelho sem dizer uma só palavra. A moça adorava ver este ritual. Saíam do circo de mãos dadas, às vezes, faziam amor num cantinho escuro perto do ponto de ônibus. Depois, ele pegava do bolso da calça um bolo de guardanapo para que a companheira se limpasse, a moça sentia-se acarinhada com esta atitude. O único bem que tinham era um ao outro e por enquanto se bastavam.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

LIVRES


casal maduro
Imagem enocntrada no google

LIVRES

Despediram-se do filho abraçados até o carro virar a esquina. Separam-se rapidamente e entraram logo em casa. 

Ele foi ver tevê e ela ao cabeleireiro. Quando chegou a hora, foram ao local marcado. 

- Boa sorte, querida.

- Para você também, querido.

Os dois: - Que vença o melhor.

Ergueram o revólver um para o outro...





terça-feira, 25 de setembro de 2012



Imagem encontrada no google



- ME AMA?

- Sim.

- Mesmo que me transforme numa minhoca?

- Lógico.

Ele se metamorfoseia e ela se despe para que a minhoca desvende todos os cantos de seu corpo.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

FUNÇÃO DA ARTE OU REFLEXO



Imagem encontra no google


FUNÇÃO DA ARTE OU REFLEXO

José sempre teve uma relação de amor e ódio com seu país de origem. Tinhas ideias de ir embora, mas ao mesmo tempo não se via longe do Brasil por muito tempo. Um dia, quando encontrou o poema Portugal, os versos traduziram o sentimento conflituoso que sentira por vários anos. 

Percebeu-se dizer:

" Te amo, Brasil."


Portugal, de Jorge Sousa Braga

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca




***







JANO 2


sábado, 22 de setembro de 2012

Saiu o trailer do meu novo filme.

video



Sinopse: Alienígena cai por acidente no planeta Silicone, onde vivem criaturas amedrontadoras e que acreditam que ele seja uma ótima cobaia para achar a fonte da juventude.

Direção: Arnaldo Jabor

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

À MARGEM



Imagem encontrada no google



Ana sempre ficava à margem na relação entre o marido e a filha. Viviam conversando baixo, enquanto ela atravessava todos os cantos da casa silenciosa. Um dia, eles foram embora sem lhe escrever um bilhete.

Anos depois, a filha apareceu grávida. Pediu para ficar. Ana aceitou, mesmo com mágoa e pensamentos sombrios.

Elas não conversavam, eram duas estrangeiras. Quando o bebê nasceu, Ana tomou o recém-nascido para ela. A filha nem ligou, estava entretida com outros problemas de trabalho e da faculdade.

 Certa manhã, o menino já estava crescido, deixou um bilhete para Ana: “ Vou embora, mas darei pensão ao menino.”. Ele choramingou um pouco, mas Ana se transformou em sua mãe por completo.

Uma vez ao ler uma revista viu o esposo. Dava uma entrevista sobre uma descoberta arqueológica. “ Sempre besta na foto, principalmente, em cima dessa pirâmide.”

A filha era arqueóloga também, sempre recebia cartas dela com cartões postais de todos os lugares do mundo. Colocava-os no fundo do armário, onde caíam no esquecimento.

Em um dia desses, o neto disse para ela que um homem o tinha procurado, dizendo que era seu pai. Conhecera sua mãe na faculdade. Sentiu-se leve com a ideia do pai do neto procurá-lo. Não ficaria sozinho se algo lhe acontecesse. Inclusive, os pensamentos sombrios talvez fossem só fruto de sua imaginação ou amargura.

Entretanto, mesmo brevemente esquecidos, sempre apareciam nas noites mal dormidas.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012


Imagem encontrada no google


DIA CHEIO

07h30min tomar café 

08h00min academia

10h00min reunião

11h00min checar novos projetos da empresa

13h00min almoço

16h00min encontro com a amante

18h00min voltar ao escritório para rever alguns contratos

20h00min jantar com a família

00h00min matar quem vier pela frente.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

conto antigo


Imagem encontrada na internet

“ Não sou a única desgraçada vagando neste inferno”

Madrugada. O telefone toca...

– Alô?

– Por favor não desliga!! você não me conhece eu não te conheço não sou bandido e nem do telemarketing.  Algo se quebrou na minha cabeça, quando ando escuto estilhaços nela. Por favor, não desliga!! Estou numa terra estranha convivo com muitas pessoas mas me sinto só, fugi da minha pequena cidade achava que escaparia da solidão, mas ela está nas minhas entranhas e pulsa cada vez mais forte. Uma vez, vi uma moça muito bonita na kombi senti que ela estava com medo, saltou rapidamente e a segui, meus pensamentos iam da frustração aos desejos mais sádicos; estava disposto a tudo, porém me lembrei dos meus pais e desisti das minhas intenções criminosas. Estou ficando louco, me masturbo várias vezes e como compulsivamente para preencher o vazio dolorido que sinto. Por favor não desliga!! merda!! Os créditos do celular estão acabando, resolvi me dar de presente um celular de última geração parcelei várias vezes fiquei feliz, durou pouco a felicidade, surgiu outro mais moderno. Sempre estou pra traz. Sou de momentos... O último foi que resolvi ser escritor, fiz um blog e colocava meus textos, ninguém lia. Um dia, vi um comentário e o li ansioso: “ Você escreve muito mal. Suas histórias são fragmentos desconexos de outras histórias conhecidas”. Foi um comentário anônimo, o filho da puta não se identificou. Por favor, não desliga!! O silêncio do meu quartinho de pensão é sufocante, estou ficando sem oxigênio, minhas ideias estão embaralhadas, quero morrer!! Acho que tem umas baratas dançando funk embaixo da cama, a menina da Kombi aparece, está de pernas abertas no chão escuro, diz: “ Me Coma!!! Se não te devoro”.  Por favor não desliga!! No auge do desespero, digitei números ao acaso no meu celular, não conheço ninguém. Desculpa por lhe incomodar, é que estou muito doente, não consigo dormir. Agora, que vomitei e defequei tudo que sentia, o sono está vencendo a minha insanidade. Obrigado por me escutar, juro que nunca mais lhe incomodarei. Tchau e se tiver bina e registrou o meu telefone, me liga. Quem sabe a gente pode ser amigos. Tchau, fui!!

  Laura desliga o telefone. Olha para o revólver no colo. Vai dormir um pouco aliviada. 

domingo, 16 de setembro de 2012


imagem encontrada na Internet

QUEBRA-CABEÇA

 De repente tudo muda e aí não sou o mesmo. Então, retiro do armário fotos antigas, releio trechos de livros sublinhados por mim e antigos fragmentos de pensamentos que espalhei na Internet ou que deixei embaixo da cama, para reconstruir o que se quebrou e se perdeu pelo caminho. Monto um quebra-cabeça dos meus eus passados. Nossa! Vivi tantas vidas.

sábado, 15 de setembro de 2012

Foto: VULTO NO QUARTO

- Olá! Todos foram embora, sabia que não me abandonaria.

O bicho papão se aproximou e se sentou ao seu lado. Ficou até o amanhecer.



VULTO NO QUARTO

 - Olá! Todos foram embora, sabia que não me abandonaria. 


 O bicho papão se aproximou e se sentou ao seu lado. Ficou até o amanhecer.




 ta plástica Ana Zanett  

CAIXA DE E-MAIL( 1 MENSAGEM)

“ Encontrei você outro dia do outro lado da rua. Chamei, mas não me ouviu. Virou a esquina e desapareceu.”

Resposta:

“ Você me viu! Estou bem?  Há muito tempo estou perdido de mim. Percebi esse fato, quando recebi seu e-mail. Vamos nos ver? Talvez me encontre através de você. Estou tão cansado, andando sem rumo por aí.”

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Foto: VERDADEIRA AMIZADE
- AMIGA, minha periquita voou para outra galáxia.
- Calma! Amiga, viajarei com você para este lugar. Espera que pegarei purpurinas encantadas para nos proteger dos monstros-saradões-intergalácticos.



VERDADEIRA AMIZADE

 - AMIGA, minha periquita voou para outra galáxia. 

- Calma! Amiga, viajarei com você para este lugar. Espera! Pegarei purpurinas encantadas para nos proteger dos monstros-saradões-intergalácticos.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

CRIANÇAS DA NOITE


Todos nós temos segredos.          A Garota da Capa Vermelha



Imagem do filme a A GAROTA DA CAPA VERMELHA



Quando eles a viram, pensaram: “ Ela mente.”  

Dona Vânia era uma moradora antiga do bairro e todos a adoravam. Foi professora exemplar e os alunos, já adultos, sempre estavam a conversar e fazer- lhe visitas.

Os novos moradores, dois irmãos, quando chegaram observaram-lhe com curiosidade. Com o passar dos dias, queriam encontrar algo que maculasse aquela imagem de respeitável senhora. 

Eles, apesar de aparentar serem crianças, viveram muito tempo para acreditar que haja uma pessoa tão inocente e bondosa. Resolveram fazer uma visita para dona Vânia. “ Essas crianças têm olhos tão tristes...”. Foi o primeiro pensamento que teve ao ver o casal de irmãos em frente ao portão. Abriu a porta: - Como vão, são novos por aqui?

A menina: Sim, a gente sentiu um cheiro bom vindo da sua casa...

Dona Vânia: Estou fazendo um bolo para o lanche, querem um pedaço? Entrem. Era o que eles queriam: um convite. Ao entrarem se admiraram com a limpeza e a arrumação da casa. 

Nas paredes, fotos de família e de alunos. De repente, sentiram uma nostalgia de um tempo que se fora. Mas, eram velhos demais para saber que havia algo errado naquela senhora. Dona Vânia cortou o bolo e mandou que sentassem a mesa. 

O garoto:  É casada?

Dona Vânia: Não.

A garota:  Por quê?

Dona Vânia: Não encontrei a pessoa certa. 

O garoto:  E filhos?

Dona Vânia:  Não tenho filhos, mas tenho muitos ex-alunos que considero como filhos. Vocês perguntam demais.  E vocês? Primeiro, seus nomes?

O menino: João e Maria.

Conversaram a tarde inteira. Ao anoitecer, os irmãos se despediram. Dona Vânia sentiu-se estranha ao se lembrar do olhar de João e Maria. Nunca vira crianças assim. Fechou a casa e, pela primeira vez na vida, não dormiu direito.

As visitas ficaram constantes. Dona Vânia não entendia o interesse dos irmãos nela. Um dia, um deles lhe fez uma pergunta:- Tem segredos?

Dona Vânia: Segredos? Não. 

Maria: Acha normal não ter segredos?

Dona Vânia: Não sei. Nunca penso sobre isso.

João:  O que você pensa então?

Dona Vânia:  Imagino coisas para incrementar o cardápio do almoço, que não posso me esquecer de regar as plantas e também do remédio da pressão que não posso deixar de tomar...

Maria:  Já pensou ter outra vida?

Dona Vânia:  Não, gosto da minha vida. Só fico triste quando penso na morte dos meus pais.

João:  Eram bons para você?

Dona Vânia: Maravilhosos.

Maria:  O quê a faz sair  do sério?

Dona Vânia:  Não gosto que maltratem os animais.

João: Já teve bichos?

Dona Vânia: Sim, mas me apego muito a eles. No ano passado, morreu Violeta. Uma ótima cadelinha sabe? Estava muito velha. 

Maria:  Você esconde algo?

Dona Vânia:  Que é isso menina, o que vou esconder?

João:  É perfeita demais, tem que ter algum defeito.

Maria: Ou essa “perfeição” é seu defeito.

Dona Vânia:  Vocês são crianças estranhas, é melhor irem embora. 

Quando anoiteceu, fez chá para se acalmar, estava nervosa. Ouviu um barulho e quando entrou na sala viu João e Maria a sua espera. Traziam uma capa vermelha.

Maria: Vista!

Dona Vânia: Como entraram aqui? Não vou vestir nada.

João:  Venha conhecer nosso mundo.

Dona Vânia:  Não vou sair de casa!

Maria: Tem medo de descobrir que nunca viveu?

Dona Vânia:  Como?

João:  Que sua vida se resumiu a interpretar a boa menina para todos.

Dona Vânia:  Crianças estranhas...

Em seguida pegou a capa vermelha. Provaria que não tinha nada para se arrepender. À noite esta azulada e a lua com um brilho desfocado.  Dona Vânia teve a impressão de entrar numa floresta misteriosa como das histórias que ouvia quando criança. As crianças a acompanhavam de mãos dadas.

Dona Vânia não conhecia a cidade nessa hora, só saía de vez em quando, de dia, para fazer compras. Era um lugar assustador, as ruas vazias e algumas pessoas embaçadas vagueando pelos becos.

João:  Esses são as crianças da noite, os alunos que sempre ignorou.

Dona Vânia: Nunca ignorei ninguém. Tenho pena delas...

Maria:  Mas, no seu belo mundo as crianças da noite não existem.

Dona Vânia:  Quem são essas crianças da noite? Aliás, cadê seus pais? Não estão preocupados por vocês ficarem até tarde na rua?

João:  Elas são qualquer um que vaga pela cidade escura, faminta por sonhos perdidos e inocências roubadas. Anseiam ardentemente por afeto e por séculos atravessam desertos sombrios nesta busca. Nossos pais caminham por ai. Nascemos independentes deles.

Um homem se aproxima e olha fixamente para Dona Vânia. Em seguida, olha para as crianças:  Encontraram uma raridade. Quem é ela?

Maria:  Vá embora, é nossa. 

O homem foi embora, mas olhou para a dona Vânia lambendo os lábios.

Dona Vânia:  Que homem horroroso. Que história é essa de dizer que sou de vocês?

João: Era só para ele ir embora. 

Avançaram pela escuridão, Dona Vânia encontrou transeuntes estranhos. Lembrava-se da existência deles em jornais e na televisão, mas não tão perto. 

Ouviu um grito, era uma moça sendo agarrada por um homem. Ela se aproximou e pediu para que a deixasse em paz. Ele a mandou embora, mas Dona Vânia disse que chamaria a polícia. O homem se aproximou e levantou a mão. João e Maria o interceptaram com apenas um olhar e o homem saiu correndo.

A jovem agradeceu à Dona Vânia, que perguntou: Minha filha, por que está na rua a esta hora?

A jovem:  Não sei. Estou perdida.

Dona Vânia: Vem conosco.

João e Maria se entreolharam e concordaram. Queriam ver até onde Dona Vânia iria. Queriam conhecer o indivíduo que se ocultava na personagem Dona Vânia.

De repente rostos vagos olhavam a senhora de capa vermelha. Sentiam-se brevemente aquecidos. Começaram a segui-la. Dona Vânia queria ajudá-los, mas se sentia tão pequena...

João e Maria descobriram seu pensamento e um pequeno ponto de ternura surgiu em seus corações frios. Olhou a jovem caminhar de mãos dadas com Dona Vânia. Havia tantos séculos que desacreditaram na humanidade. Dona Vânia poderia ser a esperança.

Próximo a uma esquina, um casal chamou João e Maria. Eram seus pais:

A mãe: Arrumaram novos brinquedinhos? 

O pai:  Parecem ser interessantes...

João: Deixem a gente passar. 

Maria:  Não queremos brigar.

Dona Vânia considerou a conversa surreal. Nunca viu pais e filhos discutirem como estranhos: - Como vocês deixam seus filhos sozinhos a essa hora da madrugada, isso é muita imprudência!

O pai:  Não aparentam, mas estão bastante crescidinhos. E você, menina de capa vermelha, não está muito tarde?

Dona Vânia: Não sou menina, tenho idade para ser sua mãe!

A mãe: Pobre menina... 

Foram embora.  As nuvens atravessam a lua desfocada. Dona Vânia sente um aperto no peito. A jovem a abraça e ela teme não conseguir protegê-la. “Atravessar a madrugada é muito perigo. Proteja-nos, senhor.”

Maria:  Pensou tão alto que ouvi seu pensamento. Muitas vezes, orei e o senhor nunca me ajudou.

Dona Vânia:  Filha, não fale assim.

João:  Não somos seus netos. Somos crianças da noite. Sentimos fome e quanto mais nos saciamos aumenta o abismo dentro da gente. A solidão dos anos cansa.

Dona Vânia:  Não entendo o que vocês falam, parecem adultos em corpos de crianças. Me dá uma vontade de chorar, criança tem que ser criança!

João e Maria se reconheceram em Dona Vânia.  Já foram assim, entretanto não sabiam definir em qual época. As lembranças remotas aparecem como fragmentos desconexos.

Maria:  Você já sabe o que somos, mas não tem coragem de pensar. Sempre gostou de viver no seu mundinho encantado, alheia a tudo.

Dona Vânia:  Vocês se acham conhecedores de tudo. Gosto da minha vida sim! Por que querem tornar tudo que vivi uma ilusão? Não será que são vocês que vivem num sonho? Por que a vida tem que ser só desespero e dor. Há amor, fui tão amada pelos meus pais, amigos e alunos. Não podem tirar isso de mim.

 João:  Mas, por que está sozinha agora na madrugada?

A pergunta caiu como um peso em Dona Vânia. Buscou as palavras para argumentar e não vieram. Não sabia por qual motivo. 

Dona Vânia:  Vocês perguntam demais, simplesmente fui vivendo, não casei e nem tive filho.

Os irmãos se entreolharam satisfeitos. Viram a senhora desconcertada. Concluíram: “Pela primeira vez, está perdendo o autocontrole.”.

A jovem: Parem de aborrecer a senhora. Não têm respeito com ninguém?

João:  Não se meta, pode se arrepender.

Dona Vânia:  Que isso! Ameaçando... 

Maria percebeu alguém a observar, era o homem que tinha lhes abordado anteriormente. 

Maria: Vamos sair logo daqui. Vocês duas correm perigo.

O homem aparece subitamente:  Quero a menina da capa vermelha.

Dona Vânia:  Não sou menina, sou uma velha.

O homem:  Você é especial. Nunca vi tanta candura. 

João:  Ela é nossa.

O homem:  Então, por que não fazem o que precisa ser feito?

Maria: Não é da sua conta.

O homem:  Eu sei o que desejam... Regatar o que foram um dia. Não tem como, amigos. Sou mais antigo e sei que nunca retornamos as origens.

Dona Vânia apertou a mão da jovem, sentiu um medo profundo. O homem parecia ser implacável e a violência silenciosa de seu olhar lhe congelava. Nunca em seus setenta anos de vida conhecera alguém assim. 

A jovem apertava sua mão também, começou a se afeiçoar à  senhora.

O homem:  Posso deixar vocês passarem, mas quero um beijo da menina de capa vermelha.  João e Maria sabem que será uma batalha difícil.

Dona Vânia  ao ver as crianças em perigo, ficou desnorteada. Tinha que fazer alguma coisa para protegê-las, sabia que o homem era muito perigoso. Sem pensar disse:- Tudo bem!

João e Maria ficaram surpresos e se admiraram por ter este sentimento. Depois de muitos anos, perceberam vida em seus corpos. 

Dona Vânia se aproximou do homem e ele a beijou. A senhora percebeu que os lábios dele eram gelados.  Depois do beijo, o homem sorriu para Dona Vânia: - Obrigado. Lembrei-me de muitas coisas já esquecidas.  Desapareceu na esquina. Dona Vânia concluiu que nunca mais o veria.

O céu começou a clarear, a rua começou a se transformar, as criaturas borradas e solitárias foram desaparecendo, substituídas por trabalhadores. Dona Vânia sentiu-se salva. Os pais de João e Maria voltaram. 

A mãe: Vão para casa!

Maria:  Não, mãe. Estamos cansados demais.

João:  Vocês podem levar a Dona Vânia e a garota para casa?

O pai: Sim, mas estão seguros do que querem fazer?

Os dois irmãos concordaram com a cabeça. Dona Vânia tentou persuadi-los, mas estavam irredutíveis. De repente, abraçaram-na  e agradeceram.

A senhora: Por quê?

Os dois: Por tudo.

Misturaram-se com os transeuntes apressados.

A garota: Vou embora também.

Dona Vânia: Tem lugar para onde ir?

A jovem: Não.

Dona Vânia: Passa uns tempos lá em casa...

***
Os vizinhos acharam estranho a jovem que apareceu do nada na casa de Dona Vânia. A senhora sempre dizia que era uma parente distante.  

Curiosamente, ninguém se lembrava dos novos vizinhos que sumiram como num passe de mágica. Nem a garota se recordava daquela noite.
Os dias foram passando, mas Dona Vânia ainda se lembrava de João e Maria: 

“ Por onde andarão ?...”

conto antigo


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HÍBRIDA

 Maria era uma jovem que só sabia trabalhar, nunca perdia o controle. Mas, quando a noite vinha, o sonho aparecia e a levava para lugares inimagináveis. Um dia, quando Maria ficou grávida, todos ficaram perplexos. Deu à luz uma menina e a chamou de Quimera. A criança, em momentos era como qualquer outra, em outros vivia alheia ao mundo. Era, ao mesmo tempo, realidade e sonho.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012




Crédito da imagem: http://portuguese.alibaba.com/product-gs-img/fluorescent-stone-423770217.html



- TUDO QUE É BELO FAZ BEM.

- E as pedras brilhosas que a gente encontrou? Envenenou toda nossa família, provocando terríveis enfermidades. 

conto antigo 2 para quem ainda não leu


Imagem encontrada na internet


A REVISORA

Quando a vi pela primeira vez, senti o meu corpo se abrir. O meu coração se dilacerava. Ela era linda e inteligente. Eu queria que ela me dissesse tantas coisas. Como tem imaginação!!! Ou você está errando menos no português, parabéns, o seu texto está muito bom!!!!!!!!!  Contudo, ela permanece silenciosa, marca com canetas vermelhas o que errei.  Sinto como se estivesse me estraçalhando com um punhal.

 – Passo por e-mail os textos corrigidos.– diz secamente. Como desejo rasgar seu vestido levemente transparente... Pergunto se gostou do meu último conto. 
Ela dá um sorriso e diz simplesmente: –sim.

 Noite densa, pego o dicionário e a gramática. Tento não repetir as palavras e entender as regras gramaticais. Nunca tive paciência em moldar o que escrevo, boto no papel e pronto. Sempre levei broncas por isso. Mas, ela não diz nada, só que pelo seu rosto e olhares percebo que ela não gosta do meu estilo literário. Lê porque é o seu trabalho. Perguntei, uma vez, de que autores ela gostava. Disse alguns nomes esquisitos que nunca ouvi falar. 

Lembro-me de uma ocasião, que fui a uma reunião de escritores novatos. E fiquei boiando na conversa. Todos comentavam de escritores novos, que estavam tendo boas críticas. Fiquei com cara de bobo. Alguns perceberam e ficaram cochichando sobre mim. Bem, não quero falar sobre isso.

 Acho que ela gosta de filmes europeus, com certeza! Deve ir com alguns amigos pra museus,   Vernissages (nem sei como se escreve essa porra!), conversar sobre literatura num bar tradicional da Zona Sul ou dá uma reunião na sua casa, com vinhos, queijos e ficar debatendo sobre a miséria do mundo, olhando livros de fotos artísticas que só tem pessoas miseráveis. 

O namorado dela é escritor e tradutor, resumindo, um intelectual. Ela parece ser quente na cama. Devem transar sempre de madrugada, depois de ele ter acabado aquele romance, que tinha feito nos tempos vagos e que está uma obra de arte, com certeza. O namorado dela é meio conhecido, escreve crônicas para uma revista. Uma vizinha minha me confessou que se masturba pensando nele e que as caspas espessas da sua cabeça ficam cravadas nas unhas dela. "Todo intelectual tem caspa", disse-me uma vez.

 Não concordei, eu tenho caspa e não sou intelectual. As pessoas adoram estereótipos. Cada um com o seu cada um, caralho!!! Não vou fugir mais, vou me declarar para ela. Mas se o namorado metido dela estiver lá, que se foda!!!!!!!!!! Meto porrada no filho da puta!!!! Mas ela é budista e não come carne vermelha. Vai sentir nojo de mim. Levo duas horas para chegar ao seu apartamento aconchegante. Eu moro distante de tudo. Demoro quarenta a duas horas para chegar aos lugares.

 Na janela do apartamento dá pra ver a praia, será que ela transa com namorado de janela aberta? Não posso ficar pensando nessas coisas. A REVISORA: é o título do romance que quero escrever, mas não posso dar para ela corrigir. Vai descobrir a paixão e os desejos baixos que sinto por ela. FODA-SE!!!!!!!!!!! Vou mostrar. Primeiro tenho que revisar antes. Não!!! Entrego assim mesmo...

Alguns meses depois:

G. saiu para caminhar. A revisora lhe deixou um recado na secretária eletrônica:

– G. você sumiu? Você deixou um texto e nunca mais voltou. Aliás, gostei muito dele. Confesso que não gostava muito do que escrevia, mas eu não sei o porquê, esse romance me tocou bastante. Lógico que precisa de muitos ajustes. Você ainda coloca muitos pronomes possessivos. Precisa cortar alguns excessos para que o texto seja mais fluído. Necessita também escolher mais as palavras, não as repetir tanto. O B. está na França, fazendo um pós-doutorado em Sorbonne. Se você puder, poderíamos conversar um pouco. Que tal às dez da noite na minha casa. A gente pode ver algum filme ou conversar sobre sua produção literária. Comprei um empadão de soja divino, que sempre encomendo de um restaurante aqui perto de casa. Vê se me liga, beijos.