quinta-feira, 20 de setembro de 2012

À MARGEM



Imagem encontrada no google



Ana sempre ficava à margem na relação entre o marido e a filha. Viviam conversando baixo, enquanto ela atravessava todos os cantos da casa silenciosa. Um dia, eles foram embora sem lhe escrever um bilhete.

Anos depois, a filha apareceu grávida. Pediu para ficar. Ana aceitou, mesmo com mágoa e pensamentos sombrios.

Elas não conversavam, eram duas estrangeiras. Quando o bebê nasceu, Ana tomou o recém-nascido para ela. A filha nem ligou, estava entretida com outros problemas de trabalho e da faculdade.

 Certa manhã, o menino já estava crescido, deixou um bilhete para Ana: “ Vou embora, mas darei pensão ao menino.”. Ele choramingou um pouco, mas Ana se transformou em sua mãe por completo.

Uma vez ao ler uma revista viu o esposo. Dava uma entrevista sobre uma descoberta arqueológica. “ Sempre besta na foto, principalmente, em cima dessa pirâmide.”

A filha era arqueóloga também, sempre recebia cartas dela com cartões postais de todos os lugares do mundo. Colocava-os no fundo do armário, onde caíam no esquecimento.

Em um dia desses, o neto disse para ela que um homem o tinha procurado, dizendo que era seu pai. Conhecera sua mãe na faculdade. Sentiu-se leve com a ideia do pai do neto procurá-lo. Não ficaria sozinho se algo lhe acontecesse. Inclusive, os pensamentos sombrios talvez fossem só fruto de sua imaginação ou amargura.

Entretanto, mesmo brevemente esquecidos, sempre apareciam nas noites mal dormidas.

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