domingo, 18 de novembro de 2012

GOZO DOENTIO


Imagem encontrada no google


“O bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.” A Peste, Albert Camus.


I.
Primeiro surgiram notícias isoladas de que algumas pessoas tiveram uma doença repentina e estranha. Com o tempo os casos foram aumentando. De repente, multidões se encontravam estendidas no chão gemendo freneticamente, com os rostos extasiados de prazer e gozando até a morte.

Os que escapavam  fugiam para regiões desabitadas, e formularam regras rígidas da moral, bons costumes e religiosas para sobreviver. Achavam que isto poderia aumentar a imunidade e dificultar a disseminação do vírus ou bactéria. Não adiantou, ao longe se ouvia milhões de pessoas tendo múltiplos orgasmos. Os berros eram tão intensos, que os animais ficavam escondidos. Sacerdotes e juízes pregavam que a causa do mal da sociedade era o desejo carnal. Qualquer manifestação sexual representava a pena de morte. Existiam fogueiras de corpos em cada esquina. Todos se vestiam com armaduras, para que a doença não penetrasse na pele. Orações em todas as partes. O cheiro do medo impregnava o ambiente.

II.
Dia nublado. Aparentemente a cidade estava tranquila. Os transeuntes voltados para si mesmos.

Ele e ela andam pela rua, perdidos em suas lembranças. Esbarram-se e, mesmo com as armaduras, seus corpos tremem. Sentem pavor da peste e se distanciam, já que são casados com outras pessoas. Mas, uma esperança os acalenta. E se, por um milagre, não fossem contagiados?  Aproximam-se e fogem para um lugar mais ermo. Os amantes se despem e transam na busca do prazer proibido. Minutos depois, cumprimentam-se perplexos por não estarem contaminados pelo gozo doentio.

Em outras partes do mundo, no mesmo dia,  os casos foram florescendo.

Um rapaz deitado no campo, olhando as nuvens, masturba-se e suando percebe que está bem.

Duas amigas que brincando,  brincando, desvendam-se e ficam contentes por estarem sadias.

O despertar do desejo de um casal idoso numa manha ensolarada.

 Um beijo inesperado de dois rapazes que viviam brigando...

III.
A cura se espalhara, assim como a praga. Ninguém entendeu o que acontecera. A alegria voltou às ruas. As armaduras foram largadas .

Como sempre, alguém tentava explicar. Mas, para que entender?

Só sei que tudo voltou ao normal. Vamos aproveitar a cura, por enquanto!


Se alguém achou a narrativa parecida com outros enredos, deve lembrar que os acontecimentos sempre se repetem ao longo da história. As piores pestes são a ignorância, a intolerância e o ódio e seus bacilos estão adormecidos em nosso inconsciente, esperando o momento certo de despertarem. Por isso, precisa-se nunca esquecer e nos manter atentos para não reproduzirmos os mesmos erros.


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