sábado, 11 de julho de 2015

POSSUÍDO



Sempre me considerei equilibrado e dono de mim mesmo. Mas, de um tempo pra cá, tive lapsos de memória e quando dava por mim, estava em outros lugares e conversando com pessoas que nunca tinha conhecido na vida. Fiquei com medo de estar enlouquecendo e me senti a deriva, pois sempre me considerei com autocontrole. Fui para vários psiquiatras, tomei remédios e me internei. Nada adiantava, eu desaparecia num passe de mágica. Comecei a pensar que uma entidade ou algum espírito me possuía, então fui enfrenta-lo e ele falou por dentro de mim que queria me salvar. Perguntei o porquê e ele me respondeu que eu vivia numa ilusão de unidade e que precisava me enxergar como vários. Chamei-o de demônio e retrucou que talvez more dentro de mim. Disse-lhe que não havia o mal em mim, só o bem. Então, ele escarafunchou uma memória antiga e me vi garotinho, que afogava com prazer as formigas que saíam do buraquinho do azulejo do banheiro. Estava tomando banho e sentia um prazer indescritível ao jogar a água nelas. Rebati, argumentando que era só uma criança sem noção do certo e errado. O demônio perguntou-me o que era certo, errado e se ao longo da história, o certo era o errado e vice-versa, dependendo de qual prisma se via. “Talvez, não sou demônio, mas anjo”. Explodi que era um Anjo Caído e riu de mim. Nunca senti tanto ódio na minha vida, de repente percebi-me mais vivo. Quando dei por mim, destruí a casa toda. Completamente exausto, fui dormir e ao acordar me senti outro. Parece que estou partido por dentro e ouço cacos o tempo todo. Algo mudou.

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Conto ao som:

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