domingo, 10 de junho de 2012

conto antigo




Pai, 
A mãe me deu a sua carta, como sempre faz críticas construtivas sobre o meu trabalho. Assino em baixo as observações. Todos acham estranho por não me visitar na prisão. Entendo e sei que nunca me perdoará. Ultimamente recordo-me dos tempos de criança, em que me mostrava jornais caseiros e panfletos com seus poemas ou contos. Depois os guardava no velho baú, que ficava ou ainda permanece no quarto da bagunça.

Lembra pai que em 1996, comentei que tinha feito junto com Drica e Bernardo um site de literatura. Você não gostou muito da idéia, sempre achou que o computador aniquila a áurea da criação. Estávamos animados em publicar nossos textos na rede e ao mundo inteiro. Conhecemos várias pessoas interessantes e idealistas e independente da tecnologia possuíamos a mesma essência de sua geração. Como sinto saudades daquele tempo, dos debates que organizávamos na faculdade e nos bares. Horas e horas de discussões que muitas vezes se transformavam em barracos históricos. 

Minha mente fica turva, mas preciso desabafar. Namorava Drica há dois anos e Bernardo sempre vivia conosco, nós três éramos unha e carne. Escrevíamos juntos, fazíamos grupos de estudos de um determinado autor e sempre estávamos na ativa para chamar alguém interessante para ir aos debates da faculdade. Apesar das diferenças e discussões, vivíamos bem. Engraçado, como um instante tudo pode mudar. O que achava sólido desmanchou-se perante meus olhos. Havia ficado até tarde na biblioteca e quando cheguei na quitinete em que morava com Drica, vi-a de quatro na cama com Bernardo. Gemiam alto e pareciam vira-latas do Campus, cruzando na frente de todos. Primeiro fiquei sem ação, depois um ódio descomunal tomou conta de mim. Peguei uma faca na cozinha e matei os dois rapidamente, não sei como consegui fazer isso, sou uma pessoa sedentária e sem forças nos braços, de repente, tornei-me Hércules.

Com o passar do tempo, começo a entender porquê de ter matado os dois. Não foi por ciúmes da Drica somente, mas por terem me excluído. Por que não me chamaram? A gente poderia ter curtido e serviria até de inspiração para escrevermos. Sei que é errado pensar assim, eles não tinham que me incluir. Será que se falassem a verdade esta tragédia aconteceria? Pai, seguirei o seu conselho, não vou especular sobre o “sí”. Aconteceu e devo pagar por meu crime.

Uma jornalista me procurou, quer fazer uma antologia dos meus contos. Não sei se aceito, as pessoas comprarão não pela qualidade literária, mas porque os contos foram escritos por um assassino que matou a namorada e o melhor amigo. Quero ser reconhecido pelo meu talento e não pela fama.

Um abraço Pai,
P. A.


***
O pai depois de ler a carta do filho, fala com a mulher:
– Querida, quando for visitar P.A., pergunta se posso publicar esta carta no meu blog, para mostrar como o meu filho escreve bem.

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