quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

MADRUGADA QUENTE( conto escrito em 2004, quando fazia uma oficina literária)




Yolanda chegou cansada do trabalho.
A primeira coisa que viu foi a Olivetti sobre o sofá-cama. A madrugada avançava. A quitinete estava um forno e mesmo com a janela escancarada, não vinha sequer uma brisa. Yolanda (só de calcinha) escrevia alguns poemas, sentada no sofá-cama e com a máquina de escrever portátil sobre os joelhos. As horas passavam, o calor continuava. Ela parou de escrever e foi beber água. O seu corpo estava todo suado. Decidiu tomar banho para se refrescar. Não adiantou, a água estava quente. Quando saiu do banheiro, lembrou-se da discussão com Clara, que lhe chamou de alienada. Revoltada, Yolanda respondeu que tinha consciência dos problemas que o país estava passando: a repressão militar e as mazelas sociais, mas que não podia se esquecer de sua família, principalmente da mãe, que estava muito doente. Às vezes sentia raiva, queria ser sozinha para seguir os seus ideais e desejos. Andou em direção à janela. Recordou que a mãe lhe dizia sempre que era como um passarinho. Frágil, mas livre. Calor, sono, pensamentos e poemas por passar a limpo se misturavam. O telefone tocou, quando atendeu ouvi o silêncio do outro lado da linha. Diz: “ É você, Paulo?”.  A ligação caiu. Pensou em Paulo e as lágrimas se misturam com suor. Estava tão cansada que dormiu entre os papéis e a Olivetti. No meio de tanto desconforto, ficou o último poema que acabara de passar a limpo na máquina de escrever.
Do outro lado da rua, em um prédio, um homem a observava de binóculo. Sentia-se fascinado por Yolanda. Mas, não era só uma atração física.
 “ Ela vive em si, sem estar amarrada a nenhum grupo e ideologia. Por isso, ela é o mistério que torna a vida mais interessante.”



***
Na primeira versão, no final do conto tentei escrever um poema que ficou ridículo. Como era um tolo pretensioso. Muitas vezes, achava que estava inventando a roda com minhas ideias geniais. Quantos micos passei, que neste momento sinto meu rosto ruborizar! Queria me valer das minhas ideias nuas e não me importava em vesti-las com leitura e treino. Meu erro mortal sempre foi a pressa em escrever e postar logo no blog e o pior que este equívoco continua a me assombrar. Porém, estou mais consciente de mim e como já disse várias vezes, escrever me salva. Quando reflito para produzir qualquer coisa( mesmo uma mensagem no face) a razão sobrepõe o emocional, já que todo escritor que ser entendido. E o interessante, é que me sinto mais livre. Enfim, escrever como terapia será meu hábito até os fins dos meus dias. Colocarei a versão mais antiga, vejam se as pequenas alterações e o corte do poema tornou o conto melhor?

MADRUGADA QUENTE
Yolanda chegou cansada do trabalho.
A primeira coisa que viu foi a Olivetti sobre o sofá-cama. A madrugada avançava. A quitinete estava um forno e mesmo com a janela escancarada, não vinha sequer uma brisa. Yolanda (só de calcinha) escrevia alguns poemas, sentada no sofá-cama e com a máquina de escrever portátil sobre os joelhos. As horas passavam, o calor continuava. Ela parou de escrever e foi beber água. O seu corpo estava todo suado. Decidiu tomar banho para se refrescar. Não adiantou, a água estava quente. “Está tão quente, que parece que vou derreter, aliás, que tudo em minha volta se transformará numa poça de suor”. Quando saiu do banheiro, lembrou-se da discussão com Clara, que lhe chamou de alienada. Revoltada, Yolanda respondeu que tinha consciência dos problemas que o país estava passando: a repressão militar e as mazelas sociais, mas que não podia se esquecer de sua família, principalmente da mãe, que estava muito doente. Às vezes sentia raiva, queria ser sozinha para seguir os seus ideais e desejos. Andou em direção à janela. Recordou que a mãe lhe dizia sempre: – Você é que nem um passarinho. Frágil, mas livre.–. Calor, sono, pensamentos e poemas por passar a limpo se misturavam. Estava tão cansada, que dormiu entre os papéis e a Olivetti. No meio de tanto desconforto, ficou o último poema que acabara de passar a limpo:
A verdadeira nudez é caótica.
Não se pode entendê-la, mas senti-la.
Deve-se buscar
o lado animalesco e

deixar o humano de lado. Yolanda Ferreira
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