Estou à deriva com tantas informações. Não estou conseguindo processar. Por que tem esta disputa de quem matou mais, os regimes capitalistas versus comunistas? Esta competição ajudará alguma coisa? Ambos mataram muita gente, não é mesmo? Por que não se evolui para uma discussão madura a este maniqueísmo de telenovelas ou desenhos animados? Realmente, é muito complexo para mim. Não adiante ficar brigando, ditaduras capitalistas e comunistas prejudicaram muita gente e ponto final. Sei lá, preciso urgentemente voltar aos livros de história. As informações que aparecem nas redes sociais me jogam para um labirinto e não tenho o fio da Ariadne para me auxiliar a sair dele. Sinto que estou caindo de um precipício direto a uma piscina tone. O vazio me consome e estou cada vez mais raso, tudo está se tornando grotesco e sem sentido. Ninguém conhece ninguém e muitas vezes nem a gente se conhece. Prefere-se viver na superfície. Minha cabeça transborda de tantos por quês? Enquanto isto, vivo num mundo no qual todos são especialistas em economia, história e política e fico calado, guardando minha insignificância. Berram seus saberes profundos originados de fontes confiáveis do Whatsapp. Misturam conceitos que levam a uma indigestão mental e percebo que eu estou no quadro de Guernica de Picasso. Preciso me desconectar um pouco, apreciar algo belo. Estou pesado e necessito da leveza efêmera da natureza. Deitar na cama no quarto escuro e apreciar o silêncio, ou, perambular por aí sem compromisso. Não entrarei em desespero, venha o que vier, estarei pronto. Agora, me deixa estudar e assimilar um pouco e não reproduzir mais caganeira. Já pensou, ser tragado pelo vaso sanitário?
, “ Há os grandes escritores e uma legião de escritores menores que tentam assimilar seus estilos.”. Então eu sou da legião dos que tentam ser aspirante a escritor que digere o estilo da legião dos escritores menores, que assimila o estilo da legião dos grandes escritores. Estou bem na fita,
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
sexta-feira, 12 de outubro de 2018
quarta-feira, 10 de outubro de 2018
sexta-feira, 5 de outubro de 2018
terça-feira, 25 de setembro de 2018
“Não eram os únicos neste vasto mundo”
"Porque eu fazia do
amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu
amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama
verdadeiramente."
Clarice Lispector
Antes da faculdade, Lauro e
Laura viviam suas solidões, apesar de terem amigos. Quando se
encontraram foi amor à primeira vista. E tinham um segredo em
comum, embora não o conseguissem definir cvom clareza.
No início, muitos os achavam interessantes, mas,
com o tempo, as atitudes do casal causavam estranheza aos amigos e
familiares. Lauro e Laura se beijavam, se davam as mãos e não se separavam por
nada, porém, pareciam não ter contato sexual.
Se alguém perguntava como era o sexo pra eles,
desconversavam. Quando estavam com amigos no quarto, olhos curiosos
observavam e ficavam intrigados ao vê-los deitados, dormindo profundamente ou
abraçados assistindo a tevê.
Amigos e familiares ficavam preocupados e sugeriam que
esquentassem a relação. Que comprassem roupas sensuais e brinquedos
eróticos. Os namorados não entendiam esta pressão para fazer sexo. Não tinham
vontade nem interesse em conhecer esses objetos.
Em uma ocasião, numa viagem entre conhecidos, um
colega agarrou Laura para ver se com a "pegada" dele, a moça ia se
viciar em sexo. Ela ficou apavorada e Lauro a salvou da situação, chegando
a lutar com o abusado. Lauro passou por momentos constrangedores,
também. Algumas meninas o paqueravam e quando não eram
correspondidas, chamavam-no de viado.
À medida que o tempo passava, a situação tornava-se
cada vez mais opressora. O respeito por eles não existia mais. Resolveram
cortar relações e viviam como exilados.
Anos depois, assistiram a um programa de
televisão, cujo tema era assexualidade. Os dois se olharam e se
perceberam.
Então, sentiram-se leves. Não eram os únicos
neste vasto mundo.
quinta-feira, 20 de setembro de 2018
Íntimos e Estranhos
"Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem.”
“Coisa
estranha isso, né? Não conhecer as pessoas. Pior que, às vezes, nem eu sei quem
sou. Como já ouvi dizer, todos nós somos atores e escolhemos o melhor de nós
para mostrar.
Eu não
tenho nada de excepcional. Saí da casa dos meus pais com quarenta anos. Fui
motivo de piada por ter saído tarde. Porém, morar com eles era tão cômodo...
Perguntaram-me
uma vez o que me levou a sair da casa deles. Embromava, porque não queria
pensar muito nisso. Era um assunto estranho e desejava empurrar para as
profundezas de mim.
Tudo
começou com uma lembrança antiga, de quando tinha uns três anos. Estava com
meus pais numa praia deserta. Minha mãe me distraía, enquanto meu pai carregava
algo pesado. Recordo-me que, mesmo brincando com minha mãe, eu sentia um
desconforto. Para onde o papai ia com aquele peso e por que pegou uma pá
depois? Minha mãe ria nervosa para mim e me chamava atenção para o castelo de
areia que fazia. Eu estava feliz, entretanto, algo não fazia sentido.
A maré
subiu e o castelo se desmanchou. Chorei, meu pai me pegou no colo e fomos
embora. O silêncio entre eles era sufocante. Depois, os dias correram e me
entreti com outras coisas. Até então, tive uma vida muito boa, mas algo
aconteceu dali pra diante.
Ao
chegar a minha casa, meus pais estavam absortos pela televisão.
Olhei
e exibia uma reportagem sobre um corpo encontrado numa praia havia muitos anos.
Eles perceberam minha presença e me olharam friamente. Fui dormir e, intuitivamente,
tranquei a porta do quarto. Semanas depois, já morava em outro lugar.
Meus
pais resolveram fazer uma viagem e disseram que ficariam fora por muito tempo.
Não sei onde estão. A única conclusão a que chego é que nunca conheci meus
pais, realmente. Só me mostravam o que lhes convinham.”
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
FÁBULA
Era uma jovem arrebatadora, que todos paravam para admirá-la.
Por meio das danças e de seus versos,
proferia verdades na mente dos que a rodeavam, conseguindo semear ideias implícitas
que levavam à reflexão.
Começou a utilizar esta técnica ao ver
seu irmão Insulto ser trucidado, porque vomitava veracidades.
****
( Inspirado numa fabula que li há
tempo, não plagiei, juro)
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
domingo, 26 de agosto de 2018
PREDADORES
Estava cansado ao ver a tela em branco do computador. Não conseguia produzir nada, sentia-se vazio.
Chegava aos quarenta e não conseguia escrever algo com consistência. Só reproduzia os estilos de escritores famosos. Pensava: “ Sou uma fraude”.
Afastou-se do computador e foi à janela com fome de inspiração. Ao longe numa árvore, viu um gavião semi escondido. Começou a admirar seu silêncio e concentração para atacar no momento certo.
As ideias surgiram, o perfil de um personagem tomou forma. Era um predador. Melhor, um “serial killer” e, como o gavião, aguardava o momento certo para atacar suas vítimas. Viajou na sua história e na simbiose entre seu protagonista e a ave.
De repente, sentiu dor e algo escorreu no rosto. Percebeu um vulto se afastar e pousar no poste em frente à janela. Era o gavião a mirá-lo fixamente.
Não entendia o que acontecia, por que o gavião o atacou? Qualquer resposta seria algo inventado pela imaginação humana. O gavião era amoral, vivia guiado por seus instintos.
Fechou a janela. Concluiu que nunca iria entender o que aconteceu. Só escreveria a singular ocorrência.
A partir desse dia, deixou-se fluir e sua escrita tornou-se mais orgânica, menos imitação pseudo-rebuscada e estéril.
Chegava aos quarenta e não conseguia escrever algo com consistência. Só reproduzia os estilos de escritores famosos. Pensava: “ Sou uma fraude”.
Afastou-se do computador e foi à janela com fome de inspiração. Ao longe numa árvore, viu um gavião semi escondido. Começou a admirar seu silêncio e concentração para atacar no momento certo.
As ideias surgiram, o perfil de um personagem tomou forma. Era um predador. Melhor, um “serial killer” e, como o gavião, aguardava o momento certo para atacar suas vítimas. Viajou na sua história e na simbiose entre seu protagonista e a ave.
De repente, sentiu dor e algo escorreu no rosto. Percebeu um vulto se afastar e pousar no poste em frente à janela. Era o gavião a mirá-lo fixamente.
Não entendia o que acontecia, por que o gavião o atacou? Qualquer resposta seria algo inventado pela imaginação humana. O gavião era amoral, vivia guiado por seus instintos.
Fechou a janela. Concluiu que nunca iria entender o que aconteceu. Só escreveria a singular ocorrência.
A partir desse dia, deixou-se fluir e sua escrita tornou-se mais orgânica, menos imitação pseudo-rebuscada e estéril.
terça-feira, 21 de agosto de 2018
Troca
A cada livro que lia, Luís sentia-se satisfeito.
O amigo de infância Paulo manteve todas as histórias que escreviam por
horas na garagem da sua casa.
Quando Paulo desapareceu com o caderno, sabia das pretensões dele.
Anos depois, quando as séries de livros foram produzidas, sentiu-se parte da criação.
Tudo que compartilhara com o amigo, estava ali. Menos, o segredo de que eram cúmplices, quando ajudaram a avó de Luís a morrer.
Ela não
suportava mais viver com dor e a estar presa numa cama. Paulo pegou os
manuscritos como forma de pagamento pelo seu silêncio.
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
REDAÇÃO DESCLASSIFICADA( 2014)
"Olá!
Quem são vocês da banca, que avaliarão minha redação? Sempre tive curiosidade
de saber se são pessoas comuns, que vivem loucas paixões, ou possuem segredos
cabeludos? Já fizeram barraco e assassinaram alguém? Fujo do tema, devo estar
louco ou bem sóbrio dependendo do ponto de vista. Na verdade, estou de saco
cheio de ser avaliado. Não quero mostrar a ninguém do que sou capaz. Será que
os avaliadores da banca são melhores do que eu? Por quê? Quem decretou isso? O
sistema? Uma coisa é certa, não são os gatos pingados que dominam o mundo. Eles
estão por de trás de tudo, manipulando nossas vidas como se fossemos
marionetes. Bem... Serei eliminado ao
lerem essa droga aqui e não entrarei no paraíso, que deve parecer um hotel
resort. Enfim, chega! Isso tudo é bastante entediante. Quero ir à praia e
observar o mar, chupando picolé. Com
certeza, será muito mais proveitoso a ficar aqui, mofando. Adeus queridos, fui
e não voltarei. Aqui, não é meu lugar. "
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
INSACIÁVEL (2014)
- Sim, está tudo bem?
- João... Estou apaixonada por outra pessoa.
- Quem, Antônia?
- Lauro.
- Lauro? Antônia, eu te amo! Tudo bem que não sou rico como ele, além da pegada que ele tem e de seu corpo escultural nos mínimos detalhes.
- João, como você sabe que ele tem uma pegada forte e detalhes de seu corpo escultural?
- Por nada! Só imagino. Por favor, vamos passar uma borracha em tudo isso e vamos ficar juntos.
- Estou achando isso muito estranho. Você não está puto e sinto que tem algo a esconder.
- Para de bobagens, Antônia. Lauro é o tipo de pessoa que só quer seduzir e ser seduzido.
- Como sabe de tudo isto? Eram apenas conhecidos... Espera um pouco, tiveram um caso também?!
- Antônia, por favor, vamos deixar quieto. Bosta quanto mais mexe, fede.
- Fale, João. Precisamos encarar a verdade, é a única chance de a gente ficar bem de novo.
- Certo, lembra-se da festa do Vagner? Estávamos andando pelo sítio dele e conversávamos assuntos sem importância, de repente, ele me beijou e aconteceu.
- Não acredito! Ele me pegou também nessa mesma festa!
- Antônia, ele é insaciável!
- O que faremos?
- Não sei, mas te amo, apesar de ter a ideia fixa no Lauro.
- Eu te amo, também, João, mas estou vidrada nele.
- Que tal a gente passar mais tempo juntos e fazer uma segunda lua de mel, Antônia?
- Concordo. Pelo menos, se ele gostasse realmente da gente, poderíamos fazer uma relação a três, né?
- Ele iria nos trair muito e nossas cabeças ficariam com chifres gigantescos.
- Pois é. Não iria suportar.
- Antônia, não quero te perder. Vamos ficar só nós.
- Nem eu, João, não quero te perder. Não consigo me imaginar sem você.
***
Resolveram dar uma chance ao casamento e apagaram as mensagens que Lauro, o insaciável, que enviava para os dois no mesmo dia da revelação.
sábado, 4 de agosto de 2018
À espera
- Mana, por que seu casamento demora tanto? O dia já ficou ensolarado, nublado, chuvoso, quente e frio. As árvores ficam secas, cheias de folhas e flores várias vezes ao mesmo tempo e ainda estamos aqui. Quero logo entrar na igreja como sua dama de honra! Depois, brincar com meus primos e amigos na festa. Não vejo a hora de comer os doces, também. Mana, há quanto tempo estamos aqui? Estou cansada de experimentar este vestido, por que a custureira não vem logo, para fazer os últimos ajustes? Mana, está tão silenciosa, que sinto saudade de sua voz.
××××
A irmã mais velha não dizia nada, para não desiludir a mais jovem, que estava segura em seus devaneios sobre o casamento.
Não tinha coragem de revelar a outra que, na verdade, eram manequins prestes a serem jogadas em um lixão.
terça-feira, 24 de julho de 2018
“Ainda escreve?”
Alguém me perguntou e não consegui responder. Sou aquele que não tem respostas prontas. Então, comecei a remexer alguns escritos
antigos. Não escrevia há bastante tempo.
Ao relê-los percebi como tive várias fases. Houve momentos, os quais me
inspirei Rubem Fonseca, Machado de Assis, Saramago, Clarice Lispector entre
outros... Além, de ensaiar alguns estilos superficialmente.
Na verdade, estes textos de anos guardaram, nas entrelinhas, meus eus passados
e me surpreendi de como fui ingênuo, pretensioso, pouco profundo e tolo. Muitos
dos meus textos antigos e atuais são superficiais e repletos de clichês. Ri que
nem louco.
Compreendi que a escrita me levou a buscar minha individualidade. Antes,
tentava viver personagens que agradassem os outros. Apaguei muitos( ouvi até
gritos de certos personagens grotescos, que os considerava super originais na
época) e continuei com outros que tinham boas ideias, quem sabe um dia, irei melhorá-los...
Por enquanto, não tenho vontade de escrever. Agora, só quero observar esta lua cheia pela
minha janela e curtir o silêncio da madrugada.
terça-feira, 26 de junho de 2018
FRONTEIRAS
- Muitas vezes, não consigo escolher as palavras certas. Quero dizer como me sinto, mas, elas ficam
embaralhadas na minha frente e não consigo pescá-las. Tentarei lhe explicar...
Há fronteiras que a gente não pode ultrapassar, pois, não tem como voltar atrás. Está entendendo? Quando me deparo com estes limites, tenho
medo de deixar de ser eu e me tornar outro ao atravessá-los. Ao mesmo tempo,
que sinto medo, surge certa curiosidade. Porém, se eu quiser voltar e não puder
mais? Já que o mundo que conhecia não existirá mais. Até quando sou prudente ou
covarde? Você já ultrapassou suas fronteiras, ainda continua sendo você? Sei
que isto é meio confuso, nunca consegui explicar o que acontece comigo. Talvez,
estas fronteiras sejam minha humanidade. Em alguns momentos, imagino-me fazer
uma crueldade com um bicho, por exemplo, colocar um gatinho no microondas... A culpa
vem galopante ao pensar sobre isto. Deve estar me achando louco, né? É que fico
transbordando com tantos pensamentos que preciso colocar um pouco para fora. Tenho
tanta ira, às vezes. Chega! Você é um cara legal, não lançou, para mim, nenhum
olhar de censura. Não sei o que me deu, nunca disse a ninguém o que lhe
confessei. Sei lá, o dia está estranho. Amanhã será outro dia, até mais. Boa
noite, vizinho.
***
O vizinho nem prestou a atenção nele. Estava mais preocupado em se livrar do corpo da amante, antes de sua noiva voltar de viagem.
sexta-feira, 1 de junho de 2018
DO CONTRA
"Poeminho do Contra ... Todos esses que aí estão Atravancando meu caminho, Eles passarão... Eu passarinho!"
— Mario Quintana
— Mario Quintana
Com pressa para não perder o ônibus perigo para atravessar a rua de repente vejo um passarinho em cima do cavalo meu celular está na mochila até eu ligar o celular e focar ele vai embora preciso atravessar a rua minha irmã está me chamando preciso correr a rua é perigosa mas tenho que tirar a foto mesmo que esteja longe minha câmera não é boa transeuntes com pressa... Cliquei!! A foto está uma merda preciso correr o ônibus está vindo tenho que prestar atenção para não ser atropelado os motoristas não estão nem aí para os pedestres por enquanto guardarei as fotos talvez consiga salvar alguma coisa e postar que pena que não posso comprar uma câmera boa e fotografar por aí o problema que serei assaltado e assassinado o Rio de janeiro não está para brincadeira sinto medo de viver ao mesmo tempo gosto de viver tenho que parar de pensar preciso focar para atravessar a rua minha irmã já está atravessando o passarinho e o cavalo estão sumindo da minha vista não posso parar o ônibus vem vindo...
domingo, 27 de maio de 2018
Fuga
Não adianta fugir de mim mesmo. De um jeito ou de outro, eu me encontro por aí.
Vejo meu reflexo no espelho e percebo que vivi outras vidas na tentativa de não me encontrar.
Milhares de anos se passaram e continuo a fugir de mim. Mesmo em corpos e personas diferentes, a expressão do olhar, quando me encontro, é a mesma.
Percebo que vivo a história de fuga repetitivamente.
Sou um fugitivo imortal.
terça-feira, 15 de maio de 2018
TODOS OS RIOS O RIO( conto antigo 17/09/2009)
Fornece água para colheita e peixes
aos pescadores, é um vazo comunicante que leva e traz os barcos dos viajantes;
é o local para o batismo dos recém-nascidos. De dia, as crianças brincam;
quando a noite cai, um refúgio para os amantes e para criminosos que praticam
maus feitos; quando só se ouve o barulho das águas correndo. Em tempos de
cheia, invade casas e aniquila tudo que encontra pelo caminho e quando volta ao
normal proporciona vida às suas margens. Existem histórias bastante antigas que
dizem que o ponto, onde desemboca, há um portal para outro mundo e que muitos
aventureiros nunca mais retornam para casa. Outros comentam que faz bem o
indivíduo jogar lembranças ruins em suas águas, transformando-se num novo ser.
Enfim, transita tanto para o bem quanto para o mal e do sagrado ao profano.
quinta-feira, 10 de maio de 2018
Luzes da cidade
Iluminem meu caminho de volta para casa.
Protejam-me das crianças da noite, que acordam vorazes e perversas.
Não deixem o abismo sombrio me pegar.
Quero viver na luz e aproveitar cada segundo da minha vida sem importância.
Vivemos em um mundo cruel, em que se mata rindo e manda queimar um corpo como se fosse pneu velho.
A cada dia que passa, o medo do caos me mata aos poucos. Não tenho mais vontade de sair de casa.
Não sei se em qualquer esquina, posso cair em um precipício.
Luzes da cidade iluminem minha volta ao lar e que eu consiga ver realmente quem me encara do outro lado do espelho.
Salvem-me da escuridão externa e da escuridão interna, que se fundem em mim e me leva a um labirinto sem fim.
segunda-feira, 23 de abril de 2018
sábado, 21 de abril de 2018
MÁSCARA-OBJETO
Não acredito, não pode ser. Deixei minha máscara em casa. Por isso, que estão me olhando estranho. Estão me vendo como sou realmente. Olham-me assustados, com desprezo e ódio. Como isto pôde acontecer? Sou o único sem máscara que anda pela rua. Nunca a esqueci, vivo com ela grudada em mim, no banho, principalmente. Mas, hoje, tudo foi bastante estranho. Acordei super atrasado.Pulei da cama e me arrumei correndo, nem tomei banho. Isto nunca aconteceu comigo... Estou completamente exposto, parece que os transeuntes estão tendo acesso aos meus pensamentos mais profundos. Preciso voltar e pegar minha máscara. Estou com tanto medo, que não consigo me mover, além, de parecer uma gelatina de tanta tremedeira. Não gosto desta sensação de fragilidade, quando uso a máscara, ficou no controle. Uma criança me aponta e diz para mãe: " Aquele homem está sem máscara, ele é maluco, mamãe?". Não, eu não sou doido, só esqueci de colocá-la. Será que irão me enfiar numa camisa de força? Sou um bom cidadão que trabalha, que paga imposto, só cometi o deslize de esquecer minha máscara em casa. Ninguém percebe que ainda sou uma pessoa? Parece me veem como uma coisa amórfica. Tenho que fugir! Espera, lembro-me que meu avô me disse que dentro da gente há uma coleção de máscaras. Não precisamos da máscara-objeto para representar nosso papel. Bem, todos diziam que o vô era caduco. Mas, não custa tentar. Ele disse que precisa se concentrar muito. Vamos lá... Cadê vocês? Só vejo escuridão, preciso relaxar. De repente, a cidade se cala e o silêncio se comunica comigo. Começo ver várias máscaras. Com pode existir tantas dentro de mim? Vou escolher uma, peguei! Tudo volta ao normal. As pessoas não me olham mais. Sou mais um mascarado na multidão, que bom. A vida que segue. Quando voltar para casa, jogarei a mascara-objeto fora, não preciso mais dela.
domingo, 8 de abril de 2018
MIRAGEM
Imagem encontrada no google
“Homem preso”... “O
número de vítimas
aumenta vertiginosamente”... “
Pedófilo desgraçado!!”... “ Entregou-se depois de fugir para
fora do país”...
Todos os dias, Sofia ouvia a enxurrada de notícias. Mas, ainda achava que estava sonhando. Vizinhos de mais de quarenta anos viravam-lhe
a cara e até destruíram o seu
pequeno jardim, o qual ela e
seu marido cuidavam com bastante zelo.
Perguntava-se por qual motivo Alfredo fez tantas coisas
ruins. Era tão cuidadoso com ela e amoroso. Aquelas meninas tinham até idade de suas
netas.
Antes, todos admiravam
e invejavam o
casamento de Sofia com Alfredo.
Sempre sorridentes e nunca brigavam.
Sentia-se plena, com um
marido que a cercava de
mimos.
Porém, quando tudo
foi revelado, Sofia teve a
sensação que toda sua vida foi uma mentira. Pôs a boca no travesseiro e gritou, sentia uma dor física.
De repente, a porta se abriu
e sua netinha correu para
ela e lhe deu um desenho.
Sofia olhou a neta, que lhe sorri. Compreendeu estar errada, sua trajetória não foi
somente miragem. Entendeu que
possuía uma família
de verdade. Relembrou os momentos
felizes e não se sentiu
mais vazia.
Finalmente, conseguiu levantar da cama. Abriu as janelas,
a vida lá fora continuava em
movimento. Seguiu os sons
que vinham da sala.
Todos estavam lá, esperando-a.
Emocionou-se, nem tudo
foi falso.
Barriga errante( conto antigo)
Essa é a história da minha barriga.
Deseja a liberdade plena. Revolta-se, quando coloco o cinto na calça. Sente-se estrangulada e se estufa ao máximo, até ceder o cinto.
Ela quer ser dona dela mesma. Eu a reprimo.
Gosto dela, porém, não posso permitir, que ela se revolte contra mim.
Tento dominá-la. Ela resiste. É uma guerra silenciosa e cruel.
A paz dessa batalha, talvez, só irá acontecer, quando nós dois morrermos.
Ou não, nossos espíritos continuarão a lutar.
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