segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Micronovela









I.

Mesmo na chuva fria e no vento gélido, Heleno abre uma fresta na janela do carro. Quer empurrar o sono para as profundezas do cérebro.

II.
Heleno tem dificuldade no trabalho, não tem o perfil da atividade que ocupa, não deseja desistir não só por motivos financeiros. Trabalhar é estar salvo de sua imaginação em constante ebulição. Tenta manter uma disciplina e não se perder nas fragmentárias quimeras que sempre o assombram.

III

Heleno pensa: “Sou vento e poeira”. O seu celular toca, ouve um leve uivo. Ao desligar, sente que a orelha tem alguns grãos de areia.

IV

O romance que Heleno pretende escrever cobra, o tempo todo, para se tornar carne e osso de palavras. Heleno sempre arruma uma desculpa ou se distrai com um cadáver de pipa emaranhada no fio do poste.

V

Outro dia, Heleno conversa pelo MSN com Nosferata( Irmã nova de Nosferato). Mesmo sendo a caçula, está cansada da eternidade. Heleno comenta que não tem medo da morte e sim do vazio de não existir. “ Gosto de viver mesmo que, em alguns momentos, tenha pensamentos suicidas e homicidas”. Nosferata entende o amigo e se despede definitivamente. Resolve ir ao encontro do tataraneto do mais famoso caçador de vampiros: Van Helsing.

VI

Heleno pensa que é híbrido. Metade ser humano, outra criatura dos sonhos. Às vezes, vê as pessoas olharem para ele com estranheza. Quanto acontece isto, sua essência fica rubra.

VII


Anos passam e a maturidade bate à porta de Heleno que a recebe com muita satisfação. Resolve viver cada dia e não se preocupar com os mistérios do futuro. Não sabe para onde vai, é um barco à deriva, porém continuará lutando. O pensamento de ser feliz virou seu mantra particular... até o dia que seu começo e seu fim se encontrem, como naquela imagem mítica da cobra que come a cauda, ouroboro.
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