terça-feira, 27 de novembro de 2018

QUERIDO DIÁRIO( VERSÃO ANTERIOR ( 2014))


Às vezes, gosto de revisitar contos antigos meus e fico surpreso  com  a imensidão de bosta que produzi. Já quis escrever coisas engraçadas que saíram  um tremendo mau gosto e tive épocas  que me achava super original...  Quanta pretensão tola!!!
Neste conto, tentei reescrevê-lo com a intenção de treinar a escrita. Com certeza nunca será publicável. 
Por fim,  aprendi  a não me levar muito. Postarei no meu blog  e  pronto. 
É meu espaço para exercitar, mesmo.

Imagem encontrada no google


QUERIDO DIÁRIO
Resolvi fazê-lo porque estou desesperada com minha vida caótica. Então, tento colocar minhas ideias em ordem e me entender como indivíduo. Sigo o conselho do meu saudoso psicanalista, que foi hipnotizado pela minha mãe-bruxa-secular para ser escravo sexual. Coitado, para se livrar dela, jogou-se de um viaduto.
Bem, meu amigo, minha família é repleta de criaturas mágicas. Meu pai é um vampiro que sempre matou meus namorados e ele tem um hábito horrível de roubar minhas roupas. Quer ser eu e isso o angustia. Por isso, qualquer homem que se aproxima de mim, meu pai o deseja e o mata. Além do mais, pedi minha mãe a lançar um feitiço para proteger meu armário. Estava ficando sem roupa.
Meu irmão é um lobisomem e meio alienígena. Como já disse, mamãe é uma bruxa ninfomaníaca. Ela aprisiona todas as espécies de machos para serem servos sexuais. O mano é um cara bacana, mas quando fica bravo, mata povoados inteiros.
Sou a única normal da família e triste por não ter nenhum amigo ou namorado. Fugi de casa e uma comunidade religiosa me acolheu. Eles me consideram muito especial e até faço parte do coro da igreja.
O pastor me disse que preciso perdoar. Então, resolvi passar o natal com minha família, já que é uma época de solidariedade e perdão.
Será que estou sendo rancorosa, meu querido diário? Desejo tanto desnudar minha alma e perdoar minha família!!!
Bem, resolvi chamar Augusto Emanoel, meu noivo amado. Ele quer conhecer muito minha família e passar o natal comigo. O que acha, amigo diário, será que dará certo?
***
Ah, meu amigo, quero lhe mostrar um poema antigo que escrevi e que minha professora de literatura me falou que era muito profundo e intenso. Coitada, ela foi assassinada pelo meu irmão, porque não quis ficar com ele.

Sou menina travessa
Mas, quando quero, sou mulher sensual
Porém, posso ser fera faminta
Logo, menina- travessa-mulher-sensual-fera-faminta

E aí? Será que sou uma poetisa, querido diário?
***
Querido diário, as festas de final de ano passaram. Percebi que não posso me reconciliar com minha família. Todos tentaram devorar Augusto Emanoel e tivemos que fugir pela alta madrugada.
Minha mãe mandou suas bestas de estimação para nos perseguir. Foi horrível e ao mesmo tempo muito triste.
Porém, encontramos algumas pessoas vestidas de branco e que faziam oferendas numa encruzilhada. Elas nos ajudaram sem pestanejar e unidos, mesmo possuindo crenças diferentes, conseguimos fazer a barreira do bem, que defendeu a todos de todo mal de minha família diabólica.
Meu querido diário, o amor venceu mais uma vez ao ódio cruel. Eu e meu noivo estamos muito bem no momento. Além, é claro, ganhamos novos amigos.
Entendi que o amor significa diversidade e foi muito bom descobrir esta verdade divina.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Passarinho




Voa por aí e depois retorna para meu peito.
Sua cantoria me ressoa por inteiro, transbordando-me vida.
Um dia, não voltará e irei perecer.
Ele sou eu.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Mortos ou vivos







Vivian está no quintal para escapar do calor. Sempre está à espera de algo. "Sinto que sou a única pessoa viva a atravessar esta madrugada. Ou estou morta ou esquecida nesta casa.".
Ouve um barulho repentino e se assusta.  Fica surpresa ao sentir qualquer coisa, depois de tantos anos. Constantemente ficava em dúvida se estava  vivia ou presa em um sonho.

Wanderson foge por muito tempo e nem tem mais a consciência dos motivos de sua fuga. 
"Assalto, tiros, Luiz é preso, Vânia atravessa a fronteira, meus pais dizem que estou morto para eles. Vivian...".
Se assusta, porque pensou em Vivian. Percebe estar na frente da casa dela.
Vivian é um pouco mais velha que ele e foi sua professora particular. Lembra-se do cheiro agradável que exalava dos cabelos longos da moça (professora particular). Ela o tratava muito bem, lhe oferecia lanches e lembranças de aniversário.  

 Vivian reconhece Wanderson pelo olhar. O medo que sentia passa.
- Rapaz, por que não apertou a campainha?
- Desculpa, se quiser, vou embora.
- Não. Está todo suado,  precisa de um banho. Pegarei umas roupas velhas do meu irmão. Sabe, ele foi para Portugal depois da morte de meus pais. Vem comigo.

Wanderson se esvazia  de seus pensamentos. Por um momento, parece que a ducha os leva para o ralo. Depois começa a pensar o que o levou a chegar nesta situação. Tem a impressão de que nunca segurou as rédeas de sua vida. Deixa-se levar pelos acasos.

Pensa em Vivian novamente e de como ficou com raiva por não ser correspondido. "Jurei nunca mais pisar nesta casa e voltar a vê-la. Ainda tem aquele cheiro nos cabelos.". Percebe-se excitado.

Vivian prepara um lanche para o ex-aluno. Sente-se estranha ao pensar em Wanderson. Como ele está forte... Sabia que ficaria assim.". Arrepia-se, não gosta de pensar certas coisas, "parece que sou outra". Todos que a conhecem a consideram como generosa e correta. Vivian incorpora impecavelmente este papel, mas, há momentos em que ela se acha incompleta. Não consegue experimentar intensamente os sentimentos, "parece que estou num palco representando uma  personagem única".

Nunca entendeu os motivos pelos quais Wanderson desapareceu. Adorava ensiná-lo. Pensava nele mais velho. Seria um cavalheiro e iria tratar bem uma mulher...

Agora, mesmo diferente do que imaginava, Vivian se encanta com
Wanderson e junto  vem a vergonha. “Estou esquisita. Não  controlo  meu  corpo  que não  para de  vibrar”. 

Wanderson vai à cozinha e se depara com a mesa posta. Lembranças já mortas ressuscitam. Vivian se  senta, também...

- Rapaz, você cresceu.  Por onde andou?
-  Vaguei por aí, que nem  uma alma penada.  E  você?
-  Continuei aqui,  fincada nesta casa. Meus pais se foram e meu irmão mora em Portugal com a família. Sou uma alma penada que tenta  sobreviver  a mais uma madrugada calorenta... Estou  curiosa,  por  que  veio?

-  De repente estava em frente a sua casa e percebi  que  precisava te ver. Acho que temos algumas questões a resolver.

- Bem,  você desapareceu do nada e não entendi o motivo.

- É que eu te amava.

-  Como?  Era só  um menino.

-  E daí? Eu a amava e pronto e você só queria brincar de professorinha boazinha.

- Eu não sabia de seus sentimentos, me desculpa.  Aliás, eu nunca pensei  que despertaria este sentimento em alguém. Como vê, estou sozinha. Está vingado?

- Não vim aqui por vingança. Queria vê-la mais uma vez. Por que nunca se casou?

- É que sou complicada. Não sei como explicar, procuro por alguma coisa e passei  muito tempo nesta busca. Muitos me acham exigente, mas realmente não sei. Nunca me apaixonei por ninguém  e fui  levando minha vida. 

- Engraçado, o tempo todo eu era insatisfeito  e ficava procurando procurando...

-  Também  havia meus pais e meu irmão.  Sempre me consideraram perfeita e nunca quis  macular  a imagem  que eles tinham de mim.  E seus pais?

-  Morri  para  eles.  Tomei muitas atitudes equivocadas sem pensar. Fui sendo levado e me enrolei  num emaranhado que não dá para  sair. Até achei já estar morto. Porém, quando a vi...

-  Pare com isso!!! É um bom homem, eu o conheço.  Também me sentia morta até reencontrá-lo.

Conversam animadamente, trocam confidências e nem percebem que o amanhecer surge com os cantos dos pássaros.

Então, os primeiros raios do sol iluminam seus beijos. Seus corpos se encaixam perfeitamente e eles aproveitam cada segundo, já que acabam por se descobrir momentaneamente vivos. 

Mesmo envolvidos no gozo, ouvem os barulhos da cidade recém-acordada e não  se  sentem mais almas solitárias. Estão conectados com a  vida, por enquanto.  
...

A empregada entra na casa vazia. Costuma fazer faxina a pedido do patrão que mora em  Portugal.  Ao entrar acha o lugar desarrumado, principalmente o quarto de Vivian. Parece que alguém invadiu a casa. Ao ligar a tevê escuta que um bandido morreu ali perto.  

domingo, 28 de outubro de 2018

CONEXÕES



"Fake News" "chega de corrupção" "fascismo" "nossa bandeira é verde amarelo" "ditadura nunca mais" "cala boca" "não calo" "vai estudar um livro de História" " vai aprender a escrever" "mais amor e menos ódio" " Vai lavar uma roupa suja" "eu vô te dar uma bofetada" "pode vim" "vai pra Cuba e Venezuela" "vamos conversar" "sai daí só quer aparecer...."

Enquanto isso, um passarinho procura por comida, alheio a estas disputas. 

sábado, 27 de outubro de 2018

Transferências e extravasos ll


" Quem nunca e enviou textão-desabafo pelo WhatsApp, jogue a primeira pedra"

"Vivian, eu não aguento mais, Vivian. Sabe, Vivian é muita hipocrisia, Vivian. As pessoas têm revolta seletiva, Vivian. Sabe, só porque uma vereadora esquerdista morreu, aí, vem um bando de gente com plaquinhas em homenagem a ela, inclusive, estes artistas de merda, Vivian. Todos hipócritas, Vivian. Se fosse eu, o assassinado, ninguém ligaria. Por que isso, Vivian? Por que as pessoas pouco estão se fudendo, para mim, Vivian? Eu existo, Vivian. Estou cansado de ser assaltado, Vivian. Nem terminei de pagar meu último celular, Vivian! Vivian, estou puto com tudo. Nosso país é uma merda. Só tem bandido nessa porra, Vivian! BASTA DE CORRUPÇÃO! Me sinto abandonado, Vivian. Parace que sou invisível. Mas, estou aqui, Vivian. Por que não ganharei uma placa, Vivian? Esse pessoalzinho de esquerda e artista é tudo elitista e macanhoeiro, Vivian. Vivian, eu não sou fascista, porém, acho que precisa exterminar esse povinho para a paz voltar ao país, kkkkk. Só quis desabafar, Vivian. É que não aguento mais você  compartilhar posts desses excrementos. Vivian, está iludida. Eles nunca deixarão você entrar no mundo deles. Vem comigo na luta para resgatar os valores verdadeiros da família e combater a corrupção que estraga o Brasil. Nossa bandeira é verde e amarela, não tem vermelho, Vivian. Pense nisso, minha querida."

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Transferências e Extravasos



"Quem você pensa que é? Se acha especial, só porque viaja para lugares bacanas, tem uma bela namorada e leu alguns livrinhos de bosta? Você é lixo e sua vida é insignificante. Odeio você, porque conhece lugares lindos e eu estou fodido e quase  sendo despejado. Você não sabe de nada e vem com esse discurso de politicamente correto e que  estamos juntos. É um hipócrita!  Pensa que não sei, é um canalha que vive nas tetas do governo e se acha O ARTISTA. Falo mesmo, durante anos não pude falar nada,  fui obrigado a ouvir um monte de merda e não pude revidar. Cambada de filhos da puta, vocês, artistas, pensam que são mais evoluídos que a gente, mas, são uma montanha de bosta. Vão chupar uma rôla. Deixa eu falar, eu preciso falar. Chega de ser machucado, preciso ferir. O lance é a meritocracia, já vi muita gente pobre se dá bem na vida. Ninguém  me ouve, só quando agrido e alguém famoso me responde. Eu existo, caralho! Podem falar que preciso ler um livro de história, porém, se me respondeu  é porque incomodei. Como despertar o ódio pode ser prazeroso, cheguei a ter múltiplos orgasmo. São um bando de vagabundos. Repetem sobre a ditadura, mas, meus pais nunca foram torturados. Quem era trabalhador de verdade não sofreu nada. Ótimo, o aperto no peito que estava sentindo, passou. Estou mais leve por ter cagado nesse pessoalzinho ridículo  que só teoriza e problematiza e não faz nada, como você, galã fracassado de novela. Já está velho e nem consegue mais um baile de debutante. Agora, quer ser cult. Vai dar este rabo. Quando a gente se encontrou, virou a cara para mim. Sou eu que não quero nada de você, lixo humano. Não está satisfeito com o Brasil, vai pra Cuba e  pra Venezuela Kkk"

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Segurança e Liberdade






Eram duas irmãs com temperamentos opostos. A primeira vivia vigilante e a segunda queria voar por aí.
Segurança aconselhava a Liberdade cautela, pois o mundo não era como sua irmã pensava.
Liberdade exausta com os conselhos da Segurança fugiu de casa e se jogou para o mundo. 
Segurança ficou depressiva, já que não tinha mais a leveza da Esperança. Os dias ficaram mais chatos.
Um dia, Liberdade voltou. Estava ferida e vazia por dentro.
Segurança a abraçou e cuidou dela até voltar a ser como era, para iluminar o lar novamente.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

CONFUSO


Estou à deriva com tantas informações. Não estou conseguindo processar. Por que tem esta disputa de quem matou mais, os regimes capitalistas versus comunistas? Esta competição ajudará alguma coisa? Ambos mataram muita gente, não é mesmo? Por que não se evolui para uma discussão madura a este maniqueísmo de telenovelas ou desenhos animados? Realmente, é muito complexo para mim. Não adiante ficar brigando, ditaduras capitalistas e comunistas prejudicaram muita gente e ponto final.  Sei lá, preciso urgentemente voltar aos livros de história.  As informações que aparecem nas redes sociais me jogam para um labirinto e não tenho o fio da Ariadne para me auxiliar a sair dele.  Sinto que estou caindo de um precipício direto a uma piscina tone.  O vazio me consome e estou cada vez mais raso, tudo está se tornando grotesco e sem sentido.  Ninguém conhece ninguém e muitas vezes nem  a gente se conhece. Prefere-se viver na superfície. Minha cabeça transborda de  tantos por  quês?  Enquanto isto, vivo num mundo no qual todos são especialistas em economia, história e política e fico calado, guardando minha insignificância. Berram seus saberes profundos originados de fontes confiáveis do Whatsapp. Misturam conceitos que levam a uma indigestão mental e percebo que eu estou no quadro de Guernica de Picasso. Preciso me desconectar um pouco, apreciar algo belo. Estou pesado e necessito da leveza efêmera da natureza.  Deitar na cama no quarto escuro e apreciar o silêncio, ou, perambular por aí sem compromisso. Não entrarei em desespero, venha o que vier, estarei pronto. Agora, me deixa estudar e assimilar um pouco e não reproduzir mais caganeira. Já pensou, ser tragado pelo vaso sanitário?

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

A lua me disse, quando estava no ônibus indo ao trabalho...






 " A história sempre se repete porque é a mesma de sempre. Eduardo, só muda os personagens. E o pior que fico entediada de ver os mesmos filmes por milênios. Como queria ser que nem você. Sentir o melhor e o pior pela primeira vez." 

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Ódio gratuito





-Amiga, por que chamam a gente de piranha?

- Não sei, miga. Nós somos só manequins nuas.


- Pois é, para que tanto ódio?

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Série Whatsapp

O sentido da vida?



Desconectado


MENSAGEM ERRADA


terça-feira, 25 de setembro de 2018

“Não eram os únicos neste vasto mundo”






"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente."
Clarice Lispector


Antes da faculdade, Lauro e Laura viviam suas solidões, apesar de terem amigos. Quando se encontraram foi amor à primeira vista. E tinham um segredo em comum, embora não o conseguissem definir cvom clareza.

No início, muitos os achavam interessantes, mas, com o tempo, as atitudes do casal causavam estranheza aos amigos e familiares. Lauro e Laura se beijavam, se davam as mãos e não se separavam por nada, porém, pareciam não ter contato sexual.

Se alguém perguntava como era o sexo pra eles, desconversavam. Quando estavam com amigos no quarto, olhos curiosos observavam e ficavam intrigados ao vê-los deitados, dormindo profundamente ou abraçados assistindo a tevê. 

Amigos e familiares ficavam preocupados e sugeriam que esquentassem a relação. Que comprassem roupas sensuais e brinquedos eróticos. Os namorados não entendiam esta pressão para fazer sexo. Não tinham vontade nem interesse em conhecer esses objetos.

Em uma ocasião, numa viagem entre conhecidos, um colega agarrou Laura para ver se com a "pegada" dele, a moça ia se viciar em sexo. Ela ficou apavorada e Lauro a salvou da situação, chegando a lutar com o abusado. Lauro passou por momentos constrangedores, também. Algumas meninas o paqueravam e quando não eram correspondidas, chamavam-no de viado.

À medida que o tempo passava, a situação tornava-se cada vez mais opressora. O respeito por eles não existia mais.  Resolveram cortar relações e viviam como exilados.

Anos depois, assistiram a um programa de televisão, cujo tema era assexualidade. Os dois se olharam e se perceberam. 

Então, sentiram-se leves. Não eram os únicos neste vasto mundo.



quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Íntimos e Estranhos



"Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem.”



“Coisa estranha isso, né? Não conhecer as pessoas. Pior que, às vezes, nem eu sei quem sou. Como já ouvi dizer, todos nós somos atores e escolhemos o melhor de nós para mostrar.

Eu não tenho nada de excepcional. Saí da casa dos meus pais com quarenta anos. Fui motivo de piada por ter saído tarde. Porém, morar com eles era tão cômodo...

Perguntaram-me uma vez o que me levou a sair da casa deles. Embromava, porque não queria pensar muito nisso. Era um assunto estranho e desejava empurrar para as profundezas de mim.

Tudo começou com uma lembrança antiga, de quando tinha uns três anos. Estava com meus pais numa praia deserta. Minha mãe me distraía, enquanto meu pai carregava algo pesado. Recordo-me que, mesmo brincando com minha mãe, eu sentia um desconforto. Para onde o papai ia com aquele peso e por que pegou uma pá depois? Minha mãe ria nervosa para mim e me chamava atenção para o castelo de areia que fazia. Eu estava feliz, entretanto, algo não fazia sentido.

A maré subiu e o castelo se desmanchou. Chorei, meu pai me pegou no colo e fomos embora. O silêncio entre eles era sufocante. Depois, os dias correram e me entreti com outras coisas. Até então, tive uma vida muito boa, mas algo aconteceu dali pra diante.

Ao chegar a minha casa, meus pais estavam absortos pela televisão.

Olhei e exibia uma reportagem sobre um corpo encontrado numa praia havia muitos anos. Eles perceberam minha presença e me olharam friamente. Fui dormir e, intuitivamente, tranquei a porta do quarto. Semanas depois, já morava em outro lugar.

Meus pais resolveram fazer uma viagem e disseram que ficariam fora por muito tempo. Não sei onde estão. A única conclusão a que chego é que nunca conheci meus pais, realmente. Só me mostravam o que lhes convinham.”


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

FÁBULA





Era uma jovem arrebatadora, que todos paravam para admirá-la.

Por meio das danças e de seus versos, proferia verdades na mente dos que a rodeavam, conseguindo semear ideias implícitas que levavam à reflexão.

Começou a utilizar esta técnica ao ver seu irmão Insulto ser trucidado, porque vomitava veracidades.

****
( Inspirado numa fabula que li há tempo, não plagiei, juro)


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Desejo proibido




Olha o reflexo das nuvens pela sarjeta. Experimenta um desejo de lambê-las, para ver se tem o mesmo gosto do algodão-doce.

De repente, sente sua taxa de açúcar aumentar.



domingo, 26 de agosto de 2018

PREDADORES




Estava cansado ao ver a tela em branco do computador. Não conseguia produzir nada, sentia-se vazio.

Chegava aos quarenta e não conseguia escrever algo com consistência. Só reproduzia os estilos de escritores famosos. Pensava: “ Sou uma fraude”.

Afastou-se do computador e foi à janela com fome de inspiração. Ao longe numa árvore, viu um gavião semi escondido. Começou a admirar seu silêncio e concentração para atacar no momento certo.

As ideias surgiram, o perfil de um personagem tomou forma. Era um predador. Melhor, um “serial killer” e, como o gavião, aguardava o momento certo para atacar suas vítimas.  Viajou na sua história e na simbiose entre seu protagonista e a ave.  

De repente, sentiu dor e algo escorreu no rosto.  Percebeu um vulto se afastar e pousar no poste em frente à janela.  Era o gavião a mirá-lo fixamente.

Não entendia o que acontecia, por que o gavião o atacou? Qualquer resposta seria algo inventado pela imaginação humana. O gavião era amoral, vivia guiado por seus instintos.

Fechou a janela. Concluiu que nunca iria entender o que aconteceu.  Só escreveria a singular ocorrência.

A partir desse dia, deixou-se fluir e sua escrita tornou-se mais orgânica, menos imitação pseudo-rebuscada e estéril.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Troca



A cada livro que lia, Luís sentia-se satisfeito. O amigo de infância  Paulo manteve todas as histórias que escreviam por horas na garagem da sua casa. 

Quando Paulo desapareceu com o caderno, sabia das pretensões dele.

Anos depois, quando as séries de livros foram produzidas, sentiu-se parte da criação. 

Tudo que compartilhara com o amigo, estava ali. Menos, o segredo de que eram cúmplices, quando ajudaram a avó de Luís a morrer.

 Ela não suportava mais viver com dor e a estar presa numa cama.  Paulo pegou os manuscritos como forma de pagamento pelo seu silêncio.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

REDAÇÃO DESCLASSIFICADA( 2014)




"Olá! Quem são vocês da banca, que avaliarão minha redação? Sempre tive curiosidade de saber se são pessoas comuns, que vivem loucas paixões, ou possuem segredos cabeludos? Já fizeram barraco e assassinaram alguém? Fujo do tema, devo estar louco ou bem sóbrio dependendo do ponto de vista. Na verdade, estou de saco cheio de ser avaliado. Não quero mostrar a ninguém do que sou capaz. Será que os avaliadores da banca são melhores do que eu? Por quê? Quem decretou isso? O sistema? Uma coisa é certa, não são os gatos pingados que dominam o mundo. Eles estão por de trás de tudo, manipulando nossas vidas como se fossemos marionetes.  Bem... Serei eliminado ao lerem essa droga aqui e não entrarei no paraíso, que deve parecer um hotel resort. Enfim, chega! Isso tudo é bastante entediante. Quero ir à praia e observar o mar, chupando picolé.  Com certeza, será muito mais proveitoso a ficar aqui, mofando. Adeus queridos, fui e não voltarei. Aqui, não é meu lugar. "

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

INSACIÁVEL (2014)







- João, precisamos conversar.

- Sim, está tudo bem?

 - João... Estou apaixonada por outra pessoa.

 - Quem, Antônia?

 - Lauro.

 - Lauro? Antônia, eu te amo! Tudo bem que não sou rico como ele, além da pegada que ele tem e de seu corpo escultural nos mínimos detalhes.

- João, como você sabe que ele tem uma pegada forte e detalhes de seu corpo escultural?

- Por nada! Só imagino. Por favor, vamos passar uma borracha em tudo isso e vamos ficar juntos.

 - Estou achando isso muito estranho. Você não está puto e sinto que tem algo a esconder.

- Para de bobagens, Antônia. Lauro é o tipo de pessoa que só quer seduzir e ser seduzido.

 - Como sabe de tudo isto? Eram apenas conhecidos... Espera um pouco, tiveram um caso também?!

 - Antônia, por favor, vamos deixar quieto. Bosta quanto mais mexe, fede.

- Fale, João. Precisamos encarar a verdade, é a única chance de a gente ficar bem de novo.

- Certo, lembra-se da festa do Vagner? Estávamos andando pelo sítio dele e conversávamos assuntos sem importância, de repente, ele me beijou e aconteceu.

 - Não acredito! Ele me pegou também nessa mesma festa!

- Antônia, ele é insaciável!

- O que faremos?

- Não sei, mas te amo, apesar de ter a ideia fixa no Lauro.

 - Eu te amo, também, João, mas estou vidrada nele.

 - Que tal a gente passar mais tempo juntos e fazer uma segunda lua de mel, Antônia?

- Concordo. Pelo menos, se ele gostasse realmente da gente, poderíamos fazer uma relação a três, né?

- Ele iria nos trair muito e nossas cabeças ficariam com chifres gigantescos.

 - Pois é. Não iria suportar.

 - Antônia, não quero te perder. Vamos ficar só nós.

 - Nem eu, João, não quero te perder. Não consigo me imaginar sem você.

 *** 

Resolveram dar uma chance ao casamento e apagaram as mensagens que Lauro, o insaciável, que enviava para os dois no mesmo dia da revelação.

sábado, 4 de agosto de 2018

À espera



- Mana, por que seu casamento demora tanto?  O dia já ficou ensolarado, nublado, chuvoso, quente e frio. As árvores ficam secas, cheias de folhas e flores várias vezes ao mesmo tempo e ainda estamos aqui. Quero logo entrar na igreja  como sua dama de honra! Depois, brincar com meus primos e amigos na festa. Não vejo a hora de comer os doces, também. Mana, há quanto tempo estamos  aqui? Estou cansada de experimentar este vestido, por que a custureira não vem logo, para fazer os últimos ajustes? Mana, está  tão silenciosa, que sinto saudade de sua voz.

××××

A irmã mais velha não dizia nada, para não desiludir a mais jovem, que estava segura em seus devaneios sobre o casamento.
Não tinha coragem de revelar a outra que, na verdade, eram manequins prestes a serem jogadas em um lixão.