sábado, 22 de abril de 2017

SOPRO



Imagem encontrada no google

Quando começou a ouvir algo que não entendia, descobriu que era vazia. Aos poucos, definira formas e significados a partir dos sons que adentravam no fundo do armário.. Não queria ser mais subjugada. Aos poucos a palavra transformava seu corpo artificial em carne e osso.

“Sofia, meu  nome”, disse de repente. Saiu do armário e se olhou no espelho. Era uma mulher nua. Pegou uma blusa e uma bermuda esperou seu “dono”, lendo alguns contos de um livro jogado na cama. Via aquelas letras embaralhadas nas páginas, formando-se em palavras, frases e orações.  Apaixonou-se pela literatura e adorava ouvir o “ possuidor” ler em voz alta, ela começou a nascer a partir daí.  Havia uma citação que espelhava o que sentia:
"A palavra é meu domínio sobre o mundo." Clarice Lispector

Ouviu o barulho na porta, respirou fundo. Já sabia o que diria.
Antônio não comprou uma boneca inflável porque se sentia triste ou sozinho. Queria dar um tempo nas relações amorosas, pois tudo se tornava chato e tinha preguiça de cultivar relacionamentos. Com o utensilio erótico, extravasa todos seus fetiches sem vergonha.

Ao abrir a porta, assustou-se com uma mulher vestida com sua roupa. Quis chamar a polícia, mas ela pediu para que a escutasse. No início, Antônio se sentiu em um romance absurdo e no sense, como uma boneca inflável se tornou uma mulher tão independente e cheia de vontades.  Sofia disse para ele que desejava conhecer o mundo, ler vários livros e que precisava de ajuda. Antônio respondeu que era impossível e a mandou ir embora do apartamento.

A mulher não arredava o pé, então, Antônio ameaçou novamente a chamar a polícia. Sofia argumentou que se fizesse isso, relataria à polícia que ele a abusou por muito tempo, tornando-a escrava sexual. Antônio resolveu cooperar.

   Sofia era inocente, pensava que respirar e ser de carne e osso bastava para ser viva. Entretanto, descobriu que no mundo dos Homens precisava de documentos que provavam sua existência. Sem RG, CPF e Titulo de Eleitor, ela não existia, como muitos por aí. Antônio tentava explicar que, antes de tudo, precisava ter uma Certidão de Nascimento. Como não tinha pais e nenhum outro parente, teriam que procurar a justiça. Enquanto isso, Sofia queira ler junto com Antônio e ele, a princípio meio contra gosto, levou-a até para a oficina literária que participava. Sofia descobriu que ser mulher de verdade tinha alguns convenientes. Sofria com a menstruação, percebeu que quando não tomava banho fedia. Além de odiar fazer cocô e xixi. Todavia, concluiu a que a vida é feita de momentos bons e ruins e que são importantes para existência. 


Realmente nesta história não houve amor à primeira vista, pelo contrário, Sofia e Antônio se detestavam, apesar de gostarem dos mesmos livros e lugares. Toleravam-se. Mas, com o passar das estações, surgiu certa amizade.  Cada vez mais queriam ficar juntos.

Familiares e amigos diziam que ele estava maluco de ficar como uma moça que foi boneca inflável. Antônio nem ligava e Sofia aos poucos descobriu que ele é um homem gentil e não um egocêntrico que só desejava saber de si.  Aprenderam muitas coisas juntas e até o sexo foi um aprendizado. Andavam em todos os recantos da cidade e curtiam cada momento juntos nos cafés e bares.  Seguiam a risca o refrão da música:
“Pedes-me um momento
Agarras as palavras
Escondes-te no tempo 
Porque o tempo tem asas
Levas a cidade
Solta me o cabelo
Perdes-te comigo
Porque o mundo é o momento”( Pedro Abrunhosa)]

Sofia conseguiu finalmente ser registrada e a ter documentos para poder trabalhar. Antônio sempre ao seu lado, feliz com suas conquistas. Todavia, começaram a entender que se tornavam mais amigos do que um casal. A relação estava morna em demasia. Mesmo tristes, resolveram se separar, para viverem outros amores.
Experimentaram vários amores, paixões, divórcios e tiveram muitos filhos, mas a amizade continuava entre dois. Quando envelheceram, decidiram morar juntos.
Anos mais tarde, familiares os encontraram um ao lado do outro. Antônio já velho e inerte na cama e Sofia, uma boneca inflável vazia. 


Conto ao som:




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