terça-feira, 11 de setembro de 2012

CRIANÇAS DA NOITE


Todos nós temos segredos.          A Garota da Capa Vermelha



Imagem do filme a A GAROTA DA CAPA VERMELHA



Quando eles a viram, pensaram: “ Ela mente.”  

Dona Vânia era uma moradora antiga do bairro e todos a adoravam. Foi professora exemplar e os alunos, já adultos, sempre estavam a conversar e fazer- lhe visitas.

Os novos moradores, dois irmãos, quando chegaram observaram-lhe com curiosidade. Com o passar dos dias, queriam encontrar algo que maculasse aquela imagem de respeitável senhora. 

Eles, apesar de aparentar serem crianças, viveram muito tempo para acreditar que haja uma pessoa tão inocente e bondosa. Resolveram fazer uma visita para dona Vânia. “ Essas crianças têm olhos tão tristes...”. Foi o primeiro pensamento que teve ao ver o casal de irmãos em frente ao portão. Abriu a porta: - Como vão, são novos por aqui?

A menina: Sim, a gente sentiu um cheiro bom vindo da sua casa...

Dona Vânia: Estou fazendo um bolo para o lanche, querem um pedaço? Entrem. Era o que eles queriam: um convite. Ao entrarem se admiraram com a limpeza e a arrumação da casa. 

Nas paredes, fotos de família e de alunos. De repente, sentiram uma nostalgia de um tempo que se fora. Mas, eram velhos demais para saber que havia algo errado naquela senhora. Dona Vânia cortou o bolo e mandou que sentassem a mesa. 

O garoto:  É casada?

Dona Vânia: Não.

A garota:  Por quê?

Dona Vânia: Não encontrei a pessoa certa. 

O garoto:  E filhos?

Dona Vânia:  Não tenho filhos, mas tenho muitos ex-alunos que considero como filhos. Vocês perguntam demais.  E vocês? Primeiro, seus nomes?

O menino: João e Maria.

Conversaram a tarde inteira. Ao anoitecer, os irmãos se despediram. Dona Vânia sentiu-se estranha ao se lembrar do olhar de João e Maria. Nunca vira crianças assim. Fechou a casa e, pela primeira vez na vida, não dormiu direito.

As visitas ficaram constantes. Dona Vânia não entendia o interesse dos irmãos nela. Um dia, um deles lhe fez uma pergunta:- Tem segredos?

Dona Vânia: Segredos? Não. 

Maria: Acha normal não ter segredos?

Dona Vânia: Não sei. Nunca penso sobre isso.

João:  O que você pensa então?

Dona Vânia:  Imagino coisas para incrementar o cardápio do almoço, que não posso me esquecer de regar as plantas e também do remédio da pressão que não posso deixar de tomar...

Maria:  Já pensou ter outra vida?

Dona Vânia:  Não, gosto da minha vida. Só fico triste quando penso na morte dos meus pais.

João:  Eram bons para você?

Dona Vânia: Maravilhosos.

Maria:  O quê a faz sair  do sério?

Dona Vânia:  Não gosto que maltratem os animais.

João: Já teve bichos?

Dona Vânia: Sim, mas me apego muito a eles. No ano passado, morreu Violeta. Uma ótima cadelinha sabe? Estava muito velha. 

Maria:  Você esconde algo?

Dona Vânia:  Que é isso menina, o que vou esconder?

João:  É perfeita demais, tem que ter algum defeito.

Maria: Ou essa “perfeição” é seu defeito.

Dona Vânia:  Vocês são crianças estranhas, é melhor irem embora. 

Quando anoiteceu, fez chá para se acalmar, estava nervosa. Ouviu um barulho e quando entrou na sala viu João e Maria a sua espera. Traziam uma capa vermelha.

Maria: Vista!

Dona Vânia: Como entraram aqui? Não vou vestir nada.

João:  Venha conhecer nosso mundo.

Dona Vânia:  Não vou sair de casa!

Maria: Tem medo de descobrir que nunca viveu?

Dona Vânia:  Como?

João:  Que sua vida se resumiu a interpretar a boa menina para todos.

Dona Vânia:  Crianças estranhas...

Em seguida pegou a capa vermelha. Provaria que não tinha nada para se arrepender. À noite esta azulada e a lua com um brilho desfocado.  Dona Vânia teve a impressão de entrar numa floresta misteriosa como das histórias que ouvia quando criança. As crianças a acompanhavam de mãos dadas.

Dona Vânia não conhecia a cidade nessa hora, só saía de vez em quando, de dia, para fazer compras. Era um lugar assustador, as ruas vazias e algumas pessoas embaçadas vagueando pelos becos.

João:  Esses são as crianças da noite, os alunos que sempre ignorou.

Dona Vânia: Nunca ignorei ninguém. Tenho pena delas...

Maria:  Mas, no seu belo mundo as crianças da noite não existem.

Dona Vânia:  Quem são essas crianças da noite? Aliás, cadê seus pais? Não estão preocupados por vocês ficarem até tarde na rua?

João:  Elas são qualquer um que vaga pela cidade escura, faminta por sonhos perdidos e inocências roubadas. Anseiam ardentemente por afeto e por séculos atravessam desertos sombrios nesta busca. Nossos pais caminham por ai. Nascemos independentes deles.

Um homem se aproxima e olha fixamente para Dona Vânia. Em seguida, olha para as crianças:  Encontraram uma raridade. Quem é ela?

Maria:  Vá embora, é nossa. 

O homem foi embora, mas olhou para a dona Vânia lambendo os lábios.

Dona Vânia:  Que homem horroroso. Que história é essa de dizer que sou de vocês?

João: Era só para ele ir embora. 

Avançaram pela escuridão, Dona Vânia encontrou transeuntes estranhos. Lembrava-se da existência deles em jornais e na televisão, mas não tão perto. 

Ouviu um grito, era uma moça sendo agarrada por um homem. Ela se aproximou e pediu para que a deixasse em paz. Ele a mandou embora, mas Dona Vânia disse que chamaria a polícia. O homem se aproximou e levantou a mão. João e Maria o interceptaram com apenas um olhar e o homem saiu correndo.

A jovem agradeceu à Dona Vânia, que perguntou: Minha filha, por que está na rua a esta hora?

A jovem:  Não sei. Estou perdida.

Dona Vânia: Vem conosco.

João e Maria se entreolharam e concordaram. Queriam ver até onde Dona Vânia iria. Queriam conhecer o indivíduo que se ocultava na personagem Dona Vânia.

De repente rostos vagos olhavam a senhora de capa vermelha. Sentiam-se brevemente aquecidos. Começaram a segui-la. Dona Vânia queria ajudá-los, mas se sentia tão pequena...

João e Maria descobriram seu pensamento e um pequeno ponto de ternura surgiu em seus corações frios. Olhou a jovem caminhar de mãos dadas com Dona Vânia. Havia tantos séculos que desacreditaram na humanidade. Dona Vânia poderia ser a esperança.

Próximo a uma esquina, um casal chamou João e Maria. Eram seus pais:

A mãe: Arrumaram novos brinquedinhos? 

O pai:  Parecem ser interessantes...

João: Deixem a gente passar. 

Maria:  Não queremos brigar.

Dona Vânia considerou a conversa surreal. Nunca viu pais e filhos discutirem como estranhos: - Como vocês deixam seus filhos sozinhos a essa hora da madrugada, isso é muita imprudência!

O pai:  Não aparentam, mas estão bastante crescidinhos. E você, menina de capa vermelha, não está muito tarde?

Dona Vânia: Não sou menina, tenho idade para ser sua mãe!

A mãe: Pobre menina... 

Foram embora.  As nuvens atravessam a lua desfocada. Dona Vânia sente um aperto no peito. A jovem a abraça e ela teme não conseguir protegê-la. “Atravessar a madrugada é muito perigo. Proteja-nos, senhor.”

Maria:  Pensou tão alto que ouvi seu pensamento. Muitas vezes, orei e o senhor nunca me ajudou.

Dona Vânia:  Filha, não fale assim.

João:  Não somos seus netos. Somos crianças da noite. Sentimos fome e quanto mais nos saciamos aumenta o abismo dentro da gente. A solidão dos anos cansa.

Dona Vânia:  Não entendo o que vocês falam, parecem adultos em corpos de crianças. Me dá uma vontade de chorar, criança tem que ser criança!

João e Maria se reconheceram em Dona Vânia.  Já foram assim, entretanto não sabiam definir em qual época. As lembranças remotas aparecem como fragmentos desconexos.

Maria:  Você já sabe o que somos, mas não tem coragem de pensar. Sempre gostou de viver no seu mundinho encantado, alheia a tudo.

Dona Vânia:  Vocês se acham conhecedores de tudo. Gosto da minha vida sim! Por que querem tornar tudo que vivi uma ilusão? Não será que são vocês que vivem num sonho? Por que a vida tem que ser só desespero e dor. Há amor, fui tão amada pelos meus pais, amigos e alunos. Não podem tirar isso de mim.

 João:  Mas, por que está sozinha agora na madrugada?

A pergunta caiu como um peso em Dona Vânia. Buscou as palavras para argumentar e não vieram. Não sabia por qual motivo. 

Dona Vânia:  Vocês perguntam demais, simplesmente fui vivendo, não casei e nem tive filho.

Os irmãos se entreolharam satisfeitos. Viram a senhora desconcertada. Concluíram: “Pela primeira vez, está perdendo o autocontrole.”.

A jovem: Parem de aborrecer a senhora. Não têm respeito com ninguém?

João:  Não se meta, pode se arrepender.

Dona Vânia:  Que isso! Ameaçando... 

Maria percebeu alguém a observar, era o homem que tinha lhes abordado anteriormente. 

Maria: Vamos sair logo daqui. Vocês duas correm perigo.

O homem aparece subitamente:  Quero a menina da capa vermelha.

Dona Vânia:  Não sou menina, sou uma velha.

O homem:  Você é especial. Nunca vi tanta candura. 

João:  Ela é nossa.

O homem:  Então, por que não fazem o que precisa ser feito?

Maria: Não é da sua conta.

O homem:  Eu sei o que desejam... Regatar o que foram um dia. Não tem como, amigos. Sou mais antigo e sei que nunca retornamos as origens.

Dona Vânia apertou a mão da jovem, sentiu um medo profundo. O homem parecia ser implacável e a violência silenciosa de seu olhar lhe congelava. Nunca em seus setenta anos de vida conhecera alguém assim. 

A jovem apertava sua mão também, começou a se afeiçoar à  senhora.

O homem:  Posso deixar vocês passarem, mas quero um beijo da menina de capa vermelha.  João e Maria sabem que será uma batalha difícil.

Dona Vânia  ao ver as crianças em perigo, ficou desnorteada. Tinha que fazer alguma coisa para protegê-las, sabia que o homem era muito perigoso. Sem pensar disse:- Tudo bem!

João e Maria ficaram surpresos e se admiraram por ter este sentimento. Depois de muitos anos, perceberam vida em seus corpos. 

Dona Vânia se aproximou do homem e ele a beijou. A senhora percebeu que os lábios dele eram gelados.  Depois do beijo, o homem sorriu para Dona Vânia: - Obrigado. Lembrei-me de muitas coisas já esquecidas.  Desapareceu na esquina. Dona Vânia concluiu que nunca mais o veria.

O céu começou a clarear, a rua começou a se transformar, as criaturas borradas e solitárias foram desaparecendo, substituídas por trabalhadores. Dona Vânia sentiu-se salva. Os pais de João e Maria voltaram. 

A mãe: Vão para casa!

Maria:  Não, mãe. Estamos cansados demais.

João:  Vocês podem levar a Dona Vânia e a garota para casa?

O pai: Sim, mas estão seguros do que querem fazer?

Os dois irmãos concordaram com a cabeça. Dona Vânia tentou persuadi-los, mas estavam irredutíveis. De repente, abraçaram-na  e agradeceram.

A senhora: Por quê?

Os dois: Por tudo.

Misturaram-se com os transeuntes apressados.

A garota: Vou embora também.

Dona Vânia: Tem lugar para onde ir?

A jovem: Não.

Dona Vânia: Passa uns tempos lá em casa...

***
Os vizinhos acharam estranho a jovem que apareceu do nada na casa de Dona Vânia. A senhora sempre dizia que era uma parente distante.  

Curiosamente, ninguém se lembrava dos novos vizinhos que sumiram como num passe de mágica. Nem a garota se recordava daquela noite.
Os dias foram passando, mas Dona Vânia ainda se lembrava de João e Maria: 

“ Por onde andarão ?...”

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